Análise: as lições de civismo e o belo adeus de Obama

No crepúsculo de sua presidência, Barack Obama não deverá aprovar muitas leis importantes. Entretanto, ele está nos deixando uma clara e poderosa lição de civismo.

Frank Bruni / NYT, O Estado de S. Paulo

12 Maio 2016 | 05h00

Basta ver o discurso aos recém-formados da Universidade Howard, no último fim de semana. Embora repleto das costumeiras congratulações pelo árduo trabalho, não deixou de conter admoestações contra os erros que vê alguns jovens cometerem.

Ele os repreendeu por demonizar os inimigos e silenciar os adversários. Ele os advertiu contra uma tendência exagerada a lamentarem e uma indignação desprovida de perspectiva.

“Se vocês tivessem de escolher uma época para existir, nas palavras da escritora negra Lorraine Hansberry, ‘jovens, talentosos e negros’ nos Estados Unidos, vocês escolheriam exatamente esta época”, ele afirmou. “Negar até onde nós chegamos, seria um desserviço à causa da justiça.”

Ele não disse que se considerassem satisfeitos, e por outro lado não estava se dirigindo apenas ou principalmente a eles. Estava se dirigindo a todos nós - aos Estados Unidos - e dizendo: basta. 

Basta à política da identidade do grupo, que pode deixar de lado o propósito comum. Basta ao partidarismo tão casuísta que escoa no ódio.

Basta ao som ensurdecedor e à fúria que cega no nosso debate público. Estas coisas poderão servir ao entretenimento, não ao entendimento, e constituem um obstáculo para o progresso.

Seu discurso em Harvard foi uma extensão do último que pronunciou em janeiro sobre o Estado da União, e dos que proferiu na Assembleia-Geral em Illinois, em fevereiro, nove anos depois de anunciar sua candidatura histórica à presidência. O discurso de Illinois, belíssimo e repleto de sabedoria, recebeu menos atenção do que merecia.

“Precisamos criar uma política melhor - uma política que seja menos espetáculo e mais uma batalha de ideias”, disse então. Do contrário, alertou, “vozes radicais preencherão o vazio”. A atual campanha presidencial dá toda razão a Obama.

Os seus detratores e os céticos provavelmente ouvem em tudo isto uma arrogância professoral que o persegue e os alienou anteriormente. Por outro lado, é possível discordar legitimamente quanto ao grau em que ele foi um agente e ao mesmo tempo vítima do ambiente envenenado que ele deplora. Os atos da sua administração nem sempre foram tão eminentes quanto suas palavras.

Mesmo assim, todos nós devemos ouvi-lo, por diversas razões.

Uma delas é que ele não está apenas atacando os adversários. Mas está lançando um desafio a determinados grupos - aos estudantes universitários afro-americanos - que o apoiaram energicamente e junto aos quais ele desfruta de uma real credibilidade.

“Devemos ampliar nossa imaginação moral”, disse aos estudantes negros de Harvard, implorando-os para que reconheçam “o branco de meia-idade que vocês acham que goza de todas as vantagens, mas que nas últimas décadas viu seu mundo virar de cabeça para baixo por causa das mudanças econômicas, culturais e tecnológicas, e se sente impotente para deter isso. Vocês precisam entrar na cabeça dele, também”.

Apenas duas semanas antes, numa reunião em Londres, ele criticara o movimento Black Lives Matter, afirmando que, quando “os políticos eleitos ou as pessoas que se encontram numa posição para empreender mudanças se dispõem a sentar ao seu lado, vocês não podem continuar berrando contra elas”.

Outra razão para ouvirmos Obama é a precisão e a eloquência com a qual ele diagnostica os males atuais. Em Illinois, observou que embora o partidarismo mau exista desde sempre, na nossa era digital ele se alimenta da capacidade dos eleitores de se preocuparem apenas com as informações vindas das fontes e da mídia social que ecoam e amplificam seus preconceitos.

“Nós podemos escolher os nossos fatos”, afirmou. “Não temos uma base comum a respeito do que é verdadeiro e do quer não é.” Os grupos de defesa dos direitos frequentemente pioram as coisas, acrescentou, “procurando manter seus integrantes numa agitação máxima, assegurando-os da retidão da sua causa”.

Em Harvard, Obama insistiu que a mudança “exige que ouçamos aqueles de quem discordamos, e estejamos preparados para o compromisso”. “Se vocês pensam que a única maneira de avançar consiste em não se comprometer na medida do possível, talvez se sintam bem consigo mesmos, gozarão de certa pureza moral, mas não alcançarão o que desejam”, continuou. “Portanto, não tentem afastar as pessoas. Não tentem excluí-las, independentemente de quanto discordarem delas”.

A esta altura do mandato, sua mensagem está longe de visar algum proveito próprio a respeito do clima político que almeja pessoalmente para poder atuar e do qual gostaria de se beneficiar, e sim do clima que beneficiará a todos. Se isto chama a atenção para as melhoria que prometeu, mas não pôde realizar, ele está em paz consigo mesmo. Mas precisa continuar falando. E assim vai elaborando seu adeus sincero, sentido, uma reflexão sobre a conturbada democracia que, temo, se perderá no clamor do combate mortal entre Donald Trump e Hillary Clinton. Com isto, ele fecha completamente o círculo, que começou com a audácia e se encerra com a tenacidade da esperança. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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