AFP PHOTO / GETTY IMAGES NORTH AMERICA AND AFP PHOTO / MANDEL NGAN AND Ethan Miller
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ANÁLISE: As mentiras sobre a amante e a estranha sensação de déjà vu

Você vem tendo uma incômoda sensação de dèja vu? Não se preocupe: não está sozinho.

Jennifer Rubin, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2018 | 05h00

Um presidente já sob investigação de um promotor especial viu-se envolvido num litígio com uma ex-amante. No decorrer do processo por ela movido, esse presidente mentiu, primeiro em público, depois sob juramento. O perjúrio foi facilmente comprovado e a Câmara de Deputados pediu seu impeachment. Esse caso, claro, foi entre Bill Clinton e Paula Jones, mas lembra bem o que está acontecendo hoje.

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Stormy Daniels já acusara Donald Trump de difamação, em parte baseada na afirmação de Trump de que a história contada pela moça - de que fora ameaçada por Trump num estacionamento - era falsa. Segundo Trump, a acusação de Stormy de que os dois tiveram um affair era “mentirosa e visava a extorsão”. Agora, Stormy tem em mãos um esplêndido caso.

Não é de admirar, pois, que o advogado de Stormy, Michael Avenatti, esteja rindo à toa. Há muito ele afirma ter provas para corroborar o que diz sua cliente. Avenatti poderá fazer Trump depor sob juramento para responder a perguntas como:

- O sr. teve relações sexuais com minha cliente?

- O sr.negou publicamente na TV não ter conhecimento de que um pagamento para encerrar a questão foi acertado?

- O sr. reembolsou seu advogado, Michael Cohen, por haver adiantado o dinheiro?

- O sr. dividiu o total combinado em pagamentos mensais? Por quê?

- O sr. pagou a outras mulheres para manterem silêncio sobre casos que teve com elas? Quantas? Todas tentaram tomar seu dinheiro? Quais os nomes delas? Quanto o sr. dispendeu nesses casos?

Além disso, Cohen se tornou uma testemunha-chave no caso de difamação. Segundo Stormy, Cohen forçou-a a fazer um acordo. Ela diz que não pressionou ninguém, e sim foi pressionada. Em consequência, Cohen poderá ter de responder a perguntas semelhantes às que seriam feitas a Trump. Um deles, ou ambos, poderia invocar a Quinta Emenda (permanecer calado para evitar a autoincriminação), mas muitos americanos interpretariam isso como indício de que um ou ambos violaram a lei.

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Para completar, Avenatti leva algumas vantagens sobre Robert S. Muller III (o promotor que investiga supostas ligações da campanha eleitoral de Trump com a Rússia). Avenatti pode fustigar Trump diariamente na TV, tática que já levou o presidente a mentir publicamente sobre não ter conhecimento do acordo financeiro. Avenatti não pode ser demitido por Trump. E, tomando-se o precedente do caso Paula Jones, o advogado de Stormy Daniels tem o direito inquestionável de fazer Trump depor sob juramento.

Há um delicioso karma no que está ocorrendo com Trump. Ele massacrou Hillary Clinton durante a campanha presidencial por ela supostamente ter ajudado o marido a manchar a reputação de mulheres que acusaram o presidente mulherengo de escapadas sexuais. E o karma atinge o apogeu quando lembramos de que Trump passou a vida ameaçando (e mesmo processando) pessoas que o acusavam de difamação.

Aí é que se entende por que Melania Trump teria chorado na noite da eleição. Melania seguramente conhecia a propensão do marido a mentir e estaria calculando as potenciais complicações legais que ele poderia enfrentar no cargo.

Que ninguém se surpreenda se Ivanka Trump, que reivindica “o direito” de acreditar nas afirmações do pai, por mais grosseiras que sejam, jogar a toalha na defesa que faz dele. Talvez seja hora de Ivanka e Jared Kushner voltarem para Nova York. Ou talvez seja hora de o próprio Trump cair fora. /TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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