Tom Brenner/REUTERS
Tom Brenner/REUTERS

Análise: As questões mais urgentes para Biden

Apesar do clima de otimismo, democrata terá de lidar com questionamento de sua legitimidade e administrar suas diferenças com líderes republicanos e grupos à esquerda de seu próprio partido

Fernanda Magnotta*, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 05h00

Joe Biden tornou-se oficialmente o 46.º presidente dos EUA. Em uma cerimônia de posse atípica, com público reduzido e esquema de segurança que fazia lembrar zonas de conflito, protagonizou mais um momento histórico. O discurso foi pautado no apelo à união nacional e na tentativa de construir empatia. Não à toa: o país dá sinais de profunda fratura social.

Há pelo menos cinco décadas os norte-americanos se defrontam com o aumento da desigualdade e a redução na percepção de qualidade de vida, além de inúmeras assimetrias regionais causadas por mudanças nas cadeias globais de produção e ligadas à desindustrialização. Se questões estruturais como essas já alimentavam ondas de ressentimento, a era Trump, marcada por discurso divisionista e por redes de desinformação, aprofundou um outro problema: o culto à ignorância. O resultado disso todos conhecemos, dentro e fora dos EUA.

Biden falou em triunfo da democracia. Acenou para opositores e reforçou seu compromisso com a diversidade. Entre os temas mais prementes a serem endereçados pela nova administração, destacou cinco: 1) o combate à pandemia; 2) a recuperação da crise econômica decorrente da pandemia; 3) a preocupação com o meio ambiente e o futuro do planeta; 4) a necessidade de combater o racismo, o supremacismo branco e o terrorismo doméstico; 5) a necessidade de reconexão com os aliados e a retomada da liderança dos EUA no cenário internacional.

O novo governo começa cercado por uma onda de otimismo. Tem a seu favor a opinião pública norte-americana. Donald Trump deixou a Casa Branca com a menor taxa de aprovação de sua presidência (29%). Biden conta com 64% do eleitorado com opinião positiva desde sua vitória. Além disso, 57% declaram aprovação às escolhas dos membros de seu gabinete. Os dados são da Pew Research Center. Além disso, os democratas terão a maioria do Congresso, tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado, o que é um alívio para o presidente em termos de governabilidade. 

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Apesar disso, engana-se quem prevê céu de brigadeiro para o novo presidente. Biden assume com mais de um terço do eleitorado acreditando na tese da fraude e na narrativa de que Trump foi o vencedor da eleição. Terá de lidar com um incômodo e permanente questionamento de sua legitimidade. Para aprovar políticas relevantes terá de administrar as diferenças com líderes republicanos, sem falar nos grupos mais progressistas e à esquerda de seu próprio partido. 

Há quem tenha descrito a posse de Biden como “monótona”. Talvez isso aconteça porque estranhamente nos acostumamos a esperar da política um show pirotécnico. Costumava ser assim no tempo dos mais populistas. Na aurora da gestão Biden, tudo indica que voltamos ao “velho normal”. O tempo dirá o que ele nos reserva.

* COORDENADORA DO CURSO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA FAAP

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