Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Análise: Autonomia e desenvolvimento como objetivos nacionais

Apesar de ser o quinto país do mundo em território e população, Brasil continua a ter participação diminuta no comércio mundial, tem desigualdade gritante, índices sociais deficientes e força militar reduzida

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2020 | 08h57

O professor e cientista político argentino Andrés Malamud dedicou capítulo de seu livro de ensaios, publicado em 2018, à questão do lugar do Brasil na região e no mundo. O título do capítulo sobre o Brasil é sugestivo: “Brasil: ascensão e queda do irmão ‘mais grande’ do mundo”. De forma proposital, usa “mais grande” em vez de “maior” para ressaltar como os argentinos, apesar de tão próximos do Brasil, nem sequer conseguem expressar-se corretamente quando tentam falar português.

O “mais grande do mundo” é uma maneira jocosa de se referir a um país que é grande na região, mas continua sendo um país médio se comparado com as maiores nações do globo. O mais interessante aspecto do ensaio de Malamud, contudo, não é a ironia de país que se considera grande e líder regional, mas que segue sendo objeto de frases jocosas pronunciadas em português gramaticalmente errado. Isso é apenas metáfora para país que, como lembra Malamud, faz piada de si mesmo sobre a afirmação de Stefan Zweig de que é o país do futuro.

Muitos aqui retrucam a afirmação com o conhecido complemento carregado de melancolia: “e sempre será”. De fato, Malamud demonstra que o país apresenta balanço híbrido, com alguns sucessos e muitas fragilidades. Apesar de ser o quinto país do mundo em território e população, com economia que oscila entre 7ª a e a 10ª, continua a ter participação diminuta no comércio mundial, além de registrar desigualdade gritante, índices sociais deficientes e força militar reduzida.

Não obstante, conta (ou contava) com diplomacia que procura superar e, em alguns casos, disfarçar essas deficiências para manter

influência no mundo. Para isso, buscou historicamente dois objetivos que garantiram algum êxito ao país, apesar de períodos de “milagre” sucedidos ciclicamente por processos recessivos: autonomia e desenvolvimento. Esses dois pilares permitiram que o país conseguisse aproveitar o contexto internacional para projetar-se ao longo do último século.

A autonomia, lembra Malamud, seria para não receber ordens de fora, e o desenvolvimento, para potencializar as capacidades internas. Esses dois desígnios mantiveram-se inalterados no período democrático, com variação de ênfases, métodos e estratégias para persegui-los. No governo FHC, buscou-se “autonomia pela participação” nos processos de globalização e em instituições regionais e multilaterais. No governo Lula, a busca da autonomia deu-se por meio da cooperação Sul-Sul e por novos arranjos com países emergentes, como o BRICS.

No governo Temer, fez-se síntese dos períodos anteriores, perseguindo-se estratégia universalista, jogando-se em todos os tabuleiros simultaneamente, de modo a aproveitar a multipolaridade sem criar antagonismos desnecessários, seja com países emergentes, seja com potências estabelecidas. Ao longo de todo esse período, as estratégias para alcançar o desenvolvimento também se alteraram, mesmo porque a economia mundial sofreu transformações.

Collor empreendeu primeira abertura comercial, enquanto FHC deu o pontapé inicial para maior integração sul-americana, sem desprezar o Mercosul como núcleo dos esforços de integração. Lula supôs que o Brasil, surfando no “boom” das commodities, seria potência no curto prazo, o que ensejou alguns equívocos, mas também ampliou as oportunidades de desenvolvimento em mercados não tradicionais.

Temer percebeu que a modernização da inserção econômica do Brasil passava por acordos de livre-comércio não apenas com os parceiros do Sul global, que continuavam importantes, mas também com as maiores economias do mundo – a política externa asiática foi o seu importante legado. A “política externa” do governo Bolsonaro resolveu abandonar tanto a autonomia quanto o desenvolvimento como objetivos centrais.

Em vez de autonomia, vemos a diplomacia brasileira tornar-se componente dos interesses dos EUA de Trump, com a importação de conflitos que não nos pertencem e alinhamento danoso às nossas relações com parceiros na Europa, no Oriente Médio e na própria região. O desenvolvimento está sendo também minado pela ideologia, uma vez que antagonizamos o principal parceiro comercial e

estamos sendo cúmplices, por ação ou omissão, do solapamento de instituições fundamentais para a prosperidade e a paz no mundo, como a ONU, a OMS e a OMC.

Se a manutenção dos objetivos da autonomia e do desenvolvimento por si só não garante sua realização, seu abandono é receita certa para o auto-isolamento e a irrelevância. Neste momento de emergência nacional, é urgente recuperar aqueles dois objetivos e atualizar a estratégia para persegui-los, em preparação para o mundo que surgirá no pós-pandemia. Isso se não quisermos confirmar, pelas próprias escolhas, a segunda parte da conclusão de Malamud: “O Brasil segue sendo um país maravilhoso. O que talvez nunca será é uma grande potência”.

HUSSEIN KALOUT, 44, é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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