Análise: Beppe Grillo pode ajudar a mergulhar a Europa em uma crise

Movimento 5 Estrelas, esquerdista e antiestablishment, tornou-se uma poderosa agremiação opositora

Rick Noack / WASHIGNTON POST, O Estado de S. Paulo

05 Dezembro 2016 | 05h00

Quando Beppe Grillo começou a virar manchete como líder do maior partido de protesto da Itália, há seis anos, foi difícil escapar das piadas. Comediante que virou político, Grillo foi alvo de gozações e chamado de palhaço. Mas, em 2013, a revista alemã Der Spiegel chamou-o de “o homem mais perigoso da Europa”. Três anos depois, temem seus críticos, ele pode estar correspondendo a essa descrição. O partido esquerdista e antiestablishment de Grillo, Movimento 5 Estrelas, tornou-se uma poderosa agremiação opositora. 

No início do ano, o primeiro-ministro Matteo Renzi não conseguiu a maioria parlamentar de dois terços para uma medida que supostamente tornaria mais eficiente o processo legislativo. Para os críticos, ela apenas daria espaço demais ao premiê. 

Renzi anunciou que renunciaria se os italianos votassem contra a reforma na Constituição – que pode abrir caminho para o M5S ao poder. Grillo há anos defende um referendo sobre a permanência da Itália na zona do euro – o que desestabilizaria a frágil economia italiana, em especial os bancos.

 

Apesar das grandes diferenças entre Grillo e Donald Trump – um é ator cômico transformado em ativista político, outro é empresário imobiliário que estreou na política e foi eleito presidente – a Europa vem fazendo frequentes comparações entre os dois. Após a vitória de Trump, Grillo afirmou: “Nossos movimentos têm algumas semelhanças. Acabamos nos tornando o principal movimento político da Itália e a mídia nem percebeu isso”. Grillo tem uma forte posição antiestablishment e anticorrupção, acusando Renzi de impedir reformas econômicas e de combate à corrupção. 

O M5S propõe em sua plataforma “água para todos, desenvolvimento e transporte sustentáveis, acesso à internet e defesa do meio ambiente. Mas, acima de tudo, o partido (que não se considera um partido, mas um movimento) levanta-se contra os líderes que governaram a Europa nos últimos anos, durante os quais o continente vem lutando para se ajustar à austeridade econômica. Nesse ponto a Itália tem sido particularmente atingida, com o desemprego entre os jovens batendo em 27%. 

Sobre a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, Grillo disse ao jornal ‘Financial Times’ no ano passado que os dois “sofrem de uma doença chamada alexitimia, que se caracteriza pela dificuldade em reconhecer emoções alheias: dor, prazer, alegria. Eles não ligam se levaram dezenas de milhões de pessoas à fome para fechar as contas – para eles, são só danos colaterais”. 

Na Europa do Norte, em especial, as declarações levantam preocupações sobre a retórica populista. “Embora soe atraente, no fundo é antidemocrática e muito semelhante à de um infame italiano do passado”, disse o jornalista conservador alemão Jan Fleischhauer, comparando indiretamente Grillo ao ditador italiano Benito Mussolini, líder do fascismo. 

Em entrevista ao Washington Post em 2012, Grillo rejeitou comparações com ditadores fascistas. “Nosso movimento vem ocupando um espaço semelhante ao que os nazistas ocuparam na Alemanha e Marine Le Pen ocupa na França, mas não temos nada a ver com eles.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

* É JORNALISTA

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