Washington Post photo by Salwan Georges
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Análise: Bernie Sanders não é socialista

Candidato favorito na disputa pela vaga do Partido Democrata é um social-democrata

Paul Krugman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2020 | 14h45

Os republicanos têm um longo histórico de confundir qualquer tentativa de melhorar a vida americana com os males do “socialismo”. Quando o Medicare foi proposto pela primeira vez, Ronald Reagan o chamou de “medicina socializada” e declarou que isto destruiria nossa liberdade. Hoje, se você reivindica algo como assistência universal à infância, os conservadores o acusam de querer transformar os EUA na União Soviética.

É uma estratégia política cínica e desonesta, mas seria difícil negar que muitas vezes foi eficaz. Agora, o primeiro colocado nas prévias democratas – não um candidato imbatível, mas claramente a pessoa que tem a maior probabilidade de vencer – é alguém que cai nessa estratégia, declarando que é, de fato, socialista.

O negócio é que Bernie Sanders não é socialista, em nenhum sentido normal do termo. Ele não quer nacionalizar nossas principais indústrias, nem substituir a lógica dos mercados pelo planejamento central. Ele não expressou admiração pela Venezuela, mas sim pela Dinamarca. É basicamente o que os europeus chamariam de social-democrata – social-democracias como a Dinamarca são, realmente, lugares bastante agradáveis para se viver, com sociedades que são, para se dizer o mínimo, mais livres que a nossa.

Então, por que Sanders se declara socialista? Eu diria que é, sobretudo, por uma questão de marketing pessoal, com uma pitada de satisfação por chocar a burguesia. E essa autoindulgência não fazia mal, uma vez que ele era apenas senador de um estado bastante liberal.

Mas, caso Sanders se torne candidato presidencial democrata, sua enganosa autodescrição será um presente para a campanha de Trump. O mesmo acontecerá com suas propostas políticas. A assistência médica financiada apenas pelo dinheiro público é (a) uma boa ideia em princípio e (b) muito improvável de acontecer na prática. Mas, ao fazer do “Assistência Médica para Todos” o lema central de sua campanha, Sanders desviaria o foco da determinação de Trump para acabar com rede de segurança social que já temos.

Para deixar bem claro: se Sanders for o candidato, o Partido Democrata precisará lhe dar todo o apoio. Ele provavelmente não conseguirá transformar os EUA na Dinamarca e, mesmo se conseguisse, Trump está tentando nos transformar em uma autocracia nacionalista branca como a Hungria. O que você prefere? Eu gostaria que Sanders não estivesse tão determinado a se tornar um alvo fácil da direita.

Falando em posição política inútil, o segundo colocado em New Hampshire também está envenenando seu próprio poço. Nos últimos dias, Pete Buttigieg optou por fazer o papel de deficit hawk (algo como “falcão do déficit público”), demonstrando que, embora possa ser um rosto novo, tem ideias extraordinariamente obsoletas.

Talvez Buttigieg desconheça o crescente consenso entre os economistas de que a histeria em torno do déficit de sete ou oito anos atrás foi exagerada. Ano passado, os mais importantes economistas de Barack Obama publicaram um artigo intitulado Quem tem medo de déficits orçamentários?, no qual concluíram: “É hora de Washington deixar de lado sua obsessão por dívidas e se concentrar em coisas mais importantes”.

E, enquanto Sanders está caindo no jogo de uma vergonhosa estratégia política republicana, Buttigieg está caindo em outra: a estratégia de amarrar a economia com austeridade fiscal quando um democrata ocupa a Casa Branca, depois soltando as amarras assim que o Partido Republicano retoma o poder. Se os democratas vencerem, precisarão seguir uma agenda progressista, não desperdiçar capital político limpando a bagunça do Partido Republicano.

Mais uma vez: se Buttigieg se tornar candidato democrata, o partido precisará apoiá-lo sem reservas. O que quer que ele diga sobre o déficit público, ele não faria o que os republicanos fazem: usar o medo da dívida como desculpa para reduzir os programas sociais.

Então, quem os democratas nomearão como candidato? Assim como você, não tenho a menor ideia. Mas o que realmente importa é que o partido ponha o foco em seus pontos fortes e nos pontos fracos de Trump. Pois o fato é que todos os democratas que poderiam se tornar presidente são moderadamente progressistas: todos querem manter e expandir a rede de seguridade social, além de aumentar os impostos sobre os ricos. E todas as evidências das pesquisas dizem que os EUA são uma nação de centro-esquerda – e é por isso que Trump prometeu aumentar os impostos sobre os ricos e proteger os principais programas sociais durante a campanha de 2016.

Mas ele estava mentindo e, a esta altura, todas as pessoas de mente aberta sabem disso. Portanto, os democratas têm a oportunidade perfeita para se apresentarem, com toda a sinceridade, como defensores da Seguridade Social, do Medicare, do Medicaid e do agora popular Affordable Care Act, o Obamacare, fazendo frente aos republicanos, que de maneira mais ou menos explícita favorecem os plutocratas em detrimento das famílias trabalhadoras.

Essa oportunidade, no entanto, será desperdiçada se o candidato democrata transformar a eleição em um referendo sobre assistência médica financiada por recursos públicos ou redução do déficit público – temas pouco populares. As coisas ficarão ainda piores se os próprios democratas se perderem em disputas sobre pureza ideológica ou probidade fiscal.

A questão é que, independentemente de quem for nomeado, os democratas precisarão construir a coalizão mais ampla possível. Caso contrário, estarão entregando a eleição nas mãos de Trump – e isto seria uma tragédia para o partido, para os EUA e para o mundo. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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