Lintao Zhang/Pool via Reuters
Lintao Zhang/Pool via Reuters

Análise: Biden entre o dilema da cooperação e do porrete com China

Futuro da relação entre os dois países dependerá de qual visão do presidente eleito Xi quer abraçar

John Pomfret*, The Washington Post

14 de novembro de 2020 | 05h00

Durante a vice-presidência, Joe Biden se gabava de ter passado mais tempo com Xi Jinping do que qualquer outro líder mundial. Juntos, eles tiveram 25 horas de refeições privadas e 38 mil quilômetros de viagem. A ideia era dizer que Biden, parafraseando George W. Bush, havia “entrado na alma de Xi”. Como candidato, porém, ele adotou certa distância.

O futuro da relação entre os dois países dependerá de qual visão do presidente eleito Xi quer abraçar. É normal que os candidatos americanos façam comentários agressivos sobre os comunistas da China nas eleições. Bill Clinton acusou seu antecessor, George Bush pai, de mimar “tiranos de Bagdá a Pequim”. George Bush filho chamou a China de “competidor estratégico”. Mas ambos acabaram aceitaram políticas conciliatórias, como a adesão da China à OMC. Nos últimos meses, Donald Trump deixou de cultivar um relacionamento com Xi e passou a culpar a China para a pandemia.

Ainda assim, a retórica dura de Biden reflete uma mudança fundamental na visão dos EUA com relação à China, que foi impulsionada por Trump. Em 2017, a Casa Branca descreveu a China como uma “potência revisionista”. Entre os americanos, uma pesquisa do Pew Research, de julho, apontou que 73% dos entrevistados tinham atitudes negativas em relação à China – maior porcentagem desde que o instituto começou a coletar esses dados, em 2005. 

Para Biden, o desafio será equilibrar os instintos que ele aperfeiçoou como negociador – o que poderia levá-lo a críticas brandas à China em troca de cooperação – e a realidade nua e crua de que o Partido Comunista não está levando a China para a democracia, como gerações de americanos acreditavam.

Alguns conselheiros de Biden, como Susan Rice, defendem uma abordagem mais suave. Como assessora de Segurança Nacional, durante o governo de Barack Obama, Rice evitou provocar a China em alguns assuntos, como a militarização do Mar do Sul da China, as violações dos direitos humanos e práticas comerciais predatórias, para conseguir acordos em outras áreas, como ciberespionagem. Mas outros assessores têm uma visão mais crítica e concordam com a leitura de Trump, de que Pequim pretende substituir os EUA como potência mundial. “Acho que há reconhecimento dentro do Partido Democrata de que Trump foi preciso ao diagnosticar as práticas predatórias da China”, disse Kurt Campbell, ex-funcionário do Departamento de Estado e assessor de Biden.

No início do mandato, Biden enfrentará encruzilhadas. E se a China oferecer ajuda com as políticas ambientais e no combate à pandemia? E se o preço cobrado for a reversão a medidas, tarifas e sanções que Trump adotou? Obama, quando enfrentou esses dilemas, aceitou promessas de bom comportamento futuro em troca de concessões à China hoje.

Biden também sinalizou que deve incorporar a questão chinesa às alianças dos EUA, formando uma frente unida contra Pequim. Mas formar uma coalizão exigirá escolhas difíceis. Os aliados querem coisas diferentes da China. O Japão quer conter a militarização dos mares da Ásia, mas não quer se meter em assuntos internos, como é o caso da Austrália. A Coreia do Sul teme quase tudo o que a China faz, principalmente após o embargo econômico, imposto por Pequim, após a implantação de um sistema antimíssil. Seul é contra políticas mais duras anti-China.

Provavelmente, o melhor conselho é esperar. O Partido Comunista vê os EUA como um país em declínio. Por isso, apenas quando Biden conseguir reunir seus aliados e endireitar o navio do governo americano, a relação com a China produzirá resultados positivos.

* FOI CORRESPONDENTE DO WASHINGTON POST EM PEQUIM E É AUTOR DO LIVRO THE BEAUTIFUL COUNTRY AND THE MIDDLE KINGDOM

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