BUNDESWEHR/Kevin Schrief/REUTERS
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Análise: Bilhões de dólares em armas compradas dos EUA não evitaram ataque na Arábia Saudita

Apesar de o reino - maior comprador de armamento militar americano - contar com baterias de mísseis Patriot, estruturas de petróleo foram atingidas por drones e mísseis no fim de semana

Adam Taylor / Washington Post, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2019 | 14h28
Atualizado 18 de setembro de 2019 | 14h47

Há muitos anos a Arábia Saudita é a maior compradora dos armamentos militares fabricados pelos Estados Unidos. Esta relação se intensificou depois que Donald Trump chegou ao poder, em 2017, com o líder americano pressionando o reino, rico em petróleo, a comprar mais armas e Riad prometendo gastar US$ 110 bilhões em armamentos americanos apenas alguns meses após sua posse.

Depois do último fim de semana, quando as instalações petrolíferas sauditas foram alvos de um ataque surpresa devastador, alguns observadores agora questionam que tipo de proteção Riad realmente comprou de Washington.

Apesar do caro equipamento militar comprado pela Arábia Saudita, os especialistas dizem que o ataque de sábado representou uma operação extraordinariamente bem planejada que teria sido difícil até para os países mais bem equipados e experientes detectar e neutralizar.

"Foi um ataque sem falhas", disse Michael Knights, que estuda as Política do Oriente Médio no Washington Institute e acompanha a defesa aérea saudita há décadas, acrescentando que as evidências sugerem que apenas 1 dos 20 mísseis pode ter errado seu alvo. "(Essa precisão) é surpreendente."

O ataque foi reivindicado por insurgentes Houthis do Iêmen, onde uma coalizão liderada pela Arábia Saudita realiza uma intervenção conturbada desde 2015. Autoridades dos EUA sugeriram que pelo menos parte do ataque foi lançado pelo Irã, rival da Arábia Saudita no Golfo Pérsico.

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A operação pareceu contornar as defesas militares da Arábia Saudita, incluindo as seis unidades do sistemas de defesa antimísseis Patriot produzidos pela empresa americana de defesa Raytheon - cada um dos quais pode custar cerca de US$ 1 bilhão.

O presidente russo, Vladimir Putin, respondeu ao ataque de sábado com escárnio. Em um evento na segunda-feira na Turquia, Putin sugeriu que a Arábia Saudita compre o sistema russo de defesa S-300 ou S-400, como o Irã e a Turquia fizeram. "Eles protegerão de forma confiável todos os objetos de infraestrutura da Arábia Saudita", afirmou Putin.

O presidente iraniano Hassan Rohani, também presente no evento, foi visto sorrindo com as declarações.

O sistema S-400 não foi testado em situações reais de conflito, mas é consideravelmente mais barato que o sistema Patriot e possui alguns recursos técnicos que são, pelo menos no papel, uma melhoria em relação ao conjunto dos EUA, incluindo um alcance mais longo e a capacidade de operar em qualquer direção.

Embora a Arábia Saudita tenha flertado com a ideia de comprar o sistema S-400, o reino provavelmente estava ciente de que isso teria um efeito desastroso em seu relacionamento com o governo Trump.

Não há evidências de que o S-400, caso estivesse em uso, poderia ter lidado melhor com o ataque de sábado do que o sistema Patriot. Mesmo o melhor sistema de defesa antimísseis não pode ter uma taxa de sucesso de 100%; atirar em um alvo em movimento é fundamentalmente difícil, exigindo velocidade e precisão consideráveis.

Quando autoridades sauditas alegaram ter abatido um míssil balístico disparado pelos Houthis em 2017, uma equipe de pesquisadores argumentou em um relatório que o sistema Patriot não havia feito nada para impedir o míssil, que quase atingira seu alvo - o aeroporto de Riad.

O ataque de sábado também teria sido exponencialmente mais difícil de neutralizar do que o de 2017. Indícios sugerem o uso de drones e mísseis de cruzeiro que teriam sido lançados de vários locais.

Knights disse que o sistema de defesa antimísseis da Arábia Saudita foi desenvolvido pela primeira vez na década de 90, depois da guerra Irã-Iraque e a subsequente Guerra do Golfo, na qual aviões e mísseis balísticos eram a principal ameaça e podiam ser vistos facilmente com radar para serem atingidos pelos sistemas de defesa à distância.

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No entanto, mísseis de cruzeiro e drones voam muito mais perto do solo, dificultando a detecção dos radares. Dada a baixa altitude, derrubar um deles traz mais riscos, especialmente quando detectado tardiamente. "Se você estiver errado, pode acabar explodindo um avião de alguma companhia internacional", disse o especialista.

A Arábia Saudita possui vários sistemas de defesa antimísseis que podem atingir alvos em baixa altitude. Tom Narako, membro sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, disse que, em teoria, o sistema Patriot poderia proteger contra essa ameaça, embora tenha sido projetado principalmente para mísseis balísticos.

No entanto, isso dependeria de onde o sistema está instalado. "A área defendida por uma bateria Patriot é relativamente pequena", disse Narako. "Existem limites reais, mesmo se você tiver uma tonelada de mísseis Patriot, sobre o que pode ser defendido."

Não está claro se as instalações de petróleo alvo do ataque, nos distritos de Khurais e Abqaiq, eram defendidas por baterias Patriot ou outros sistemas.

Becca Wasser, analista sênior de políticas da Rand Corp., disse que a responsabilidade pela proteção da infraestrutura crítica da Arábia Saudita foi dividida entre o Ministério do Interior e a Guarda Nacional da Arábia Saudita, e não tem participação dos militares.

"Essas estruturas, regras e responsabilidades sobrepostas são um vestígio de práticas à prova de golpes", disse Becca, explicando que o sistema foi projetado para impedir que qualquer ala do poder represente uma ameaça à família dominante.

A Arábia Saudita planeja reformas militares para resolver esses problemas como parte das mudanças em toda a sociedade que estão sendo promovidas pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, acrescentou Becca. 

O reino, ciente da ameaça técnica imposta pelo Irã às suas principais instalações, também pode comprar novas armas que possam combater melhor essa ameaça.

O sistema de defesa antimísseis Iron Dome, co-projetado pela empresa de defesa israelense Rafael e pela americana Raytheon, pode ser uma possibilidade, disse Narako. O sistema é mais conhecido por seu uso em Israel, onde é usado para derrubar foguetes lançados de Gaza e do sul do Líbano. 

"Os sauditas querem algo como o Iron Dome, mas provavelmente não o chamarão de Iron Dome", disse Narako. A Arábia Saudita também pode melhorar as capacidades de seus radares com o uso de sensores elevados que podem detectar ameaças mais distantes.

Por enquanto, no entanto, o reino pode ter que aprender a fazer melhor uso do que já tem. Novas compras dos Estados Unidos podem levar anos, especialmente com o aumento das suspeitas do Congesso americano sobre o país e as restrições de exportação em vigor de algumas das tecnologias mais avançadas dos EUA.

E pode ser que não haja qualquer tipo de ajuda da Casa Branca. Embora Trump tenha pressionado as forças armadas sauditas a fazerem mais compras, ele sugeriu na segunda-feira que os Estados Unidos não tinham obrigação de proteger o reino - e que, se houvesse um conflito, Riad novamente pagaria a conta.

"O fato é que os sauditas terão muito envolvimento nisso se decidirmos fazer alguma coisa. Eles estarão muito envolvidos, e isso inclui pagamentos", disse Trump.

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