Shealah Craighead / Casa Branca
Shealah Craighead / Casa Branca

Análise: Bolsonaro ainda não entendeu as nuances de Trump 

Após Trump sugerir que a cloroquina seria eficaz contra a covid-19, duas pessoas morreram nos EUA ao ingerirem o remédio, que ainda não tem eficácia comprovada

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2020 | 19h36

Donald Trump vinha negando a gravidade do novo coronavírus. Fez isso ao lado de Jair Bolsonaro, na porta do resort de Mar-a-Lago, na Flórida, ao dizer que não estava "nem um pouco preocupado" com a chegada do vírus. Foi segundos depois de dizer que Bolsonaro fazia um "grande trabalho no Brasil", mas se recusar a reduzir as tarifas de produtos brasileiros. Bolsonaro, que não fala inglês e não tinha tradutor, manteve o olhar vago. Dois dias depois, o brasileiro, que disse se inspirar em Trump, deu início ao seu discurso de que a pandemia é uma fantasia superdimensionada.

Seja porque foi convencido de que o coronavírus afetaria a sociedade americana, seja pelo apetite político, Trump mudou. No dia 29 de fevereiro, os EUA tiveram a primeira morte por coronavírus e o presidente seguia desconectado dos alertas mundiais. Sua popularidade, que estava em 44,3% no meio do mês, começou a cair. Em 11 de março, a OMS declarou o coronavírus uma pandemia e Trump, que já tinha perdido 2 pontos de aprovação, anunciou que restringiria a entrada de voos da Europa.  

No dia 13, o presidente americano declarou emergência nacional, mas só no dia 16, depois de Nova York já ter fechado todo o comércio não essencial, deu a resposta que os americanos cobravam, admitindo que a situação não estava controlada, o combate ao vírus duraria meses e a economia entraria em recessão. A taxa de aprovação voltou a subir imediatamente e continua alta, passando dos 44%.

Trump minimizou de forma irresponsável o vírus. Vendeu falsas esperanças de que uma vacina esteja pronta antes do que cientistas imaginam e sugeriu que a cloroquina seria eficaz contra a covid-19. Após a fala do presidente, duas pessoas morreram nos EUA ao ingerirem o remédio, que ainda não tem eficácia comprovada.

Mas é verdade também que há pelo menos 10 dias Trump pede, todos os dias, em suas redes sociais e em coletivas de imprensa, que os americanos fiquem em casa e cumpram o distanciamento social. "Cada americano tem uma missão a cumprir na defesa da nossa nação. Sigam as orientações: fiquem em casa e salvem vidas", disse Trump.

Ele também trava um cabo de guerra com os governadores, mas, ao mesmo tempo, divulga no Twitter as restrições estaduais de circulação e as defende. "Governadores, prefeitos, comércio e cidadãos estão trabalhando com urgência e rapidez em torno de um objetivo comum, que é salvar vidas", disse o presidente, há três dias.

A impressão que fica é a de que quem auxiliou Bolsonaro a fazer o pronunciamento da noite de terça-feira, 24, não acompanhou nada disso, nem viu as fotos da Times Square vazia ou os tuítes em que Trump pede distanciamento social. Mas, certamente, quem escreveu o texto de Bolsonaro viu o presidente americano na Fox News

Nos últimos dois dias, Trump vem flertando com a volta ao negacionismo, o que transpareceu na entrevista à Fox. Ele disse que o remédio não pode ser mais amargo do que a doença e mostrou que quer relaxar as medidas de isolamento. Na TV, afirmou que os EUA "não foram construídos para parar" e queria o país reaberto para negócios na Páscoa, 12 de abril.

Ele foi duramente criticado, e não é à toa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera os EUA, com 65 mil casos e quase mil mortos, o novo epicentro da pandemia. Os casos no Estado de Nova York dobram a cada três dias e o governador já avisou que faltará leitos e respiradores. Pelo menos 40% dos internados em NY tem menos de 54 anos. Não há sinais de que o fim do isolamento social seja recomendado pelos médicos antes da Páscoa.

Então, Trump deu um passo atrás. Prometeu que nada será feito sem o aval de especialistas. Indicou que a ideia de retomar atividades na Páscoa é uma meta que não necessariamente será colocada em prática. O presidente tinha ao seu lado Anthony Fauci, respeitado como a voz da sensatez nas coletivas da Casa Branca. O médico e chefe do Instituto de Doenças Infecciosas dos EUA já disse que nunca foi atropelado por Trump, quando explica que uma medida não pode ser tomada em nome da segurança da população. 

"O melhor para nossa economia é uma vitória muito forte sobre o vírus", disse Trump na noite de terça-feira, pouco antes de Bolsonaro começar a falar no Brasil. 

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A reportagem do Estado que revela que o discurso de Bolsonaro foi planejado junto ao "gabinete do ódio" ajuda a entender por que o brasileiro resolveu copiar partes de falas de Trump, ignorando a mudança de tom do próprio americano.  Por enquanto, ele nunca defendeu  que as pessoas saiam às ruas e ignorem as orientações médicas de distanciamento social.

A ideia de reabrir a economia foi jogada no ar pelo presidente exatamente nos dias em que os congressistas americanos negociavam a aprovação do pacote de socorro econômico de US$ 2 trilhões. Era um recado ao Congresso, que chegou a um acordo sobre o texto nesta madrugada.

A mera importação do discurso do americano já não faria sentido se desconsideradas as peculiaridades de cada país. Os EUA não têm comunidades como as nossas favelas, pobres, de alta densidade populacional e com condições precárias de saneamento e dificuldades de acesso -- focos preocupantes para a disseminação de qualquer tipo de doença. Mas, ainda que a intenção fosse puramente plagiar Trump, faltou algo. Os americanos estão em isolamento há 10 dias, com apoio de Trump e dos governadores, e não consta que isso vá mudar tão cedo.

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