Análise: Bolsonaro e a tática de preservar o poder pelo confronto

Análise: Bolsonaro e a tática de preservar o poder pelo confronto

Método que caracteriza sua personalidade e o levou ao poder pode se provar contraproducente aos seus próprios interesses

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2020 | 18h06

Com o refinamento intelectual que lhe é peculiar, o ex-chanceler Celso Lafer esgrimiu com toda maestria a moldura que forjou a personalidade do presidente da República. Ao seu modo sutil, Lafer traçou com esmero as etapas que caracterizam a trajetória de vida de Jair Bolsonaro

O fio condutor de seu o comportamento político, ao largo do exercício de suas funções profissionais, foi sempre balizado pelo "confronto". Tomando emprestado as palavras do ex-chanceler, o confronto caracterizou a sua passagem pelo Exército Brasileiro, a sua vida parlamentar, a sua campanha presidencial e, por fim, caracteriza a forma como vem governando o País. 

O confronto, portanto, compõe não apenas a sua personalidade, mas, tornou-se, parte inseparável de sua essência. Não seria difícil de imaginar que até a obra do filósofo romano Lucrécio, intitulada De rerum natura (Sobre a natureza das coisas), falharia em seu desígnio de decifrar a raiz da essência que rege a personalidade do mandatário brasileiro.

Ao se eleger chefe de Estado, Bolsonaro elevou à enésima potência esse método. Os efeitos negativos encontram-se refletidos na degradação da relação do Planalto com os demais poderes constituídos da República. 

Os efeitos do comportamento presidencial estimulam – propositalmente ou não – dois caminhos que em nada servem a Nação e as instituições de Estado. O primeiro se baseia no acirramento máximo da intolerância política e, consequentemente, no aprofundamento da clivagem social. O resultado dessa equação, na prática, é a desunião dos brasileiros. É nessas fendas e por meio dessas fraturas que o bolsonarismo vai se materializando como uma “Ideologia política”. 

O segundo caminho, não obstante, é centrado na manutenção do confronto institucional com o Congresso Nacional e o Poder Judiciário. O embate com ambos se converteu em componente estratégico e parte inseparável para tracionar a narrativa anti-establishment – basta se recordar do vídeo do leão e das hienas. 

Ao tensionar as relações com os outros poderes, o presidente busca atingir dois objetivos: 1) Se o governo fracassar, a culpa será posta na conta do sistema político, pois terá sido o establishment que impediu o presidente de realizar a transformação do “novo Brasil”; 2) Se o governo for bem-sucedido em seus projetos, a narrativa será a de que o presidente prevaleceu contra tudo e contra todos. Nas duas pontas do argumento, o bolsonarismo fideliza eleitores e se exime da responsabilidade de quaisquer fracassos. 

No entanto, o entrechoque institucional está empurrando o País a flertar com o perigoso limiar da ruptura. Essa dinâmica não só vem ameaçando a harmonia entre os poderes como, também, tem colocado a ordem democrática em compasso de alerta. A despeito das Forças Armadas não subscreverem os vacilos presidenciais, Bolsonaro segue instrumentalizando os militares como variável em sua narrativa para reafirmar o seu poder constitucional. 

Ademais, atacar a mídia e deslegitimar o seu papel democrático significa, na prática, colocar a liberdade de expressão exercida via os meios profissionais de comunicação em pé de igualdade com as milícias digitais que atuam na engrenagem do Bolsonarismo.  

Quem é titular de 57 milhões de voto não precisa das Forças Armadas para seguir na cadeira pública mais importante do País. Basta cumprir e fazer cumprir a Constituição. Com a caneta nova, mas com a tinta sendo esvaziada, sincronicamente, pelo Congresso e pelo STF, o presidente recorre aos seus instintos autocráticos em vez de reorganizar a sua estratégia de comunicação. 

A incapacidade de governança, associada às graves crises sanitária, econômica e política, vão servindo de pretexto para que o presidente faça o que disse que jamais faria: negociar com o Centrão – patronos do fisiologismo político em estado bruto. Nos bastidores, o Planalto já atua para alugar o número mágico de 172 votos com o objetivo de bloquear eventual abertura de processo de impeachment. 

Seguindo a máxima lapidar de Lucrécio ‘Nil posse creari de nilo’ (Nada pode ser criado a partir do nada), foi o presidente quem conduziu o seu governo ao atual estado de derretimento. Enfim, o método que caracteriza a sua personalidade e que o levou ao poder pode se provar contraproducente aos seus próprios interesses. 

*HUSSEIN KALOUT, 43, é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018) e atuou como consultor das Nações Unidas e do Banco Mundial. Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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