Beatriz Bulla/ESTADAO
Beatriz Bulla/ESTADAO
Imagem Lourival Sant'Anna
Colunista
Lourival Sant'Anna
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Análise: Bolsonaro e seus seguidores olham o mundo pelo retrovisor

O deputado Eduardo Bolsonaro ocupa a presidência da Comissão de Relações Exteriores da Câmara desde março de 2019. Ele acaba de alcançar sua primeira realização visível no cargo: fazer os chineses perderem sua milenar paciência

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2020 | 05h00

O deputado Eduardo Bolsonaro ocupa a presidência da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara desde março de 2019. Ele acaba de alcançar sua primeira realização visível no cargo: fazer os chineses perderem sua milenar paciência. É um feito notável, em tão pouco tempo.

Brasil apoia projeto dos EUA para o 5G e se afasta de tecnologia da China”, tuitou o filho do presidente na noite de segunda-feira. “O governo Jair Bolsonaro declarou apoio à aliança Clean Network, lançada pelo governo Donald Trump, criando uma aliança global para um 5G seguro, sem espionagem da China.” No dia seguinte, o deputado apagou o tuíte, após se reunir com seu pai, com o ministro das Comunicações, Fabio Faria, e com conselheiros da Anatel.

Outros dois tuítes que o seguiam no “fio” foram mantidos, nos quais ele inclui o Partido Comunista da China entre “entidades agressivas e inimigas da liberdade”, e ressalta a parceria entre Brasil e EUA para bloquear a participação da gigante fornecedora de equipamentos Huawei na frequência 5G.

A resposta do embaixador chinês, Yang Wanming, veio na terça-feira, numa torrente de 17 tuítes inéditos pelo tom. Depois de lembrar que um terço das exportações brasileiras é destinado à China, e seu país é um dos maiores investidores no Brasil, Yang advertiu que “o deputado tem produzido declarações infames que solapam a atmosfera amistosa entre os dois países”, que podem ter “consequências negativas”. 

O Itamaraty respondeu, em nota, que a China deveria ter usado os canais oficiais para se queixar. Em diplomacia, a escolha do canal é tão importante quanto o conteúdo da mensagem. A China respondera no Twitter porque fora atacada nele. Ao responder em comunicado oficial, o Brasil elevou o patamar da crise.

O Conselho Empresarial Brasil-China lançou na quinta-feira, com a presença do vice-presidente Hamilton Mourão, um estudo que define o país asiático como parceiro e fonte de oportunidades em vez de ameaça e competidor. Mourão declarou no evento que os dois países devem caminhar juntos, as relações se intensificaram na pandemia e Eduardo não fala em nome do governo. 

Além da Huawei no 5G, o presidente e seu entorno têm atacado a segurança e eficácia das vacinas chinesas contra covid-19. Esses são, hoje, os principais vetores estratégicos da projeção global chinesa. Atacar os dois é o caminho mais curto para ser visto como adversário da China. O Brasil não é obrigado a comprar nada dos chineses. Fazer campanha contra seus produtos é chamar para a briga.

Repare que o 5G e a vacina são produtos de investimentos em pesquisa e desenvolvimento. De fato, o cerne da chamada “nova Guerra Fria” é a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Em contraste, a Guerra Fria original, entre americanos e soviéticos, girava em torno da disputa ideológica entre capitalismo e comunismo.

Naquela época, muitos países foram compelidos a se alinhar a um ou outro polo, por pressões de ordem geoeconômica. As motivações externas e internas do golpe de 1964 tiveram esse contexto.

A atual geração de generais brasileiros entende essa diferença e se incomoda, ainda que silenciosamente, com a tendência da ala chamada “ideológica” do governo de entrar em um embate desnecessário e prejudicial aos interesses do Brasil. O presidente deu baixa do Exército em 1989, ano da queda do Muro de Berlim, e no início da transição brasileira rumo à democracia.

Bolsonaro saiu com a patente de capitão, que não dá acesso às análises de cenário dos cursos dos oficiais superiores, nas promoções de major até general. O presidente e seus seguidores olham o mundo pelo retrovisor, com as referências de uma Guerra Fria encerrada há três décadas.

É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.