Análise: Brasil descobriu tarde diplomata inovador

Na história da ONU, poucos funcionários tiveram tanto prestígio e credibilidade quanto Sérgio Vieira de Mello. Carismático, ele mobilizava com paixão seus colaboradores e dialogava igualmente com todos os atores num conflito.

Gilberto M. A. Rodrigues *, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2013 | 02h03

Quando um carro-bomba explodiu ao lado do prédio da ONU em Bagdá, em 19 de agosto de 2003, Vieira de Mello e outros 21 funcionários da entidade foram mortos, no que foi considerado o pior ataque terrorista contra as Nações Unidas. Pouco após, Kofi Annan, secretário-geral da ONU, ordenou a retirada de todo o seu pessoal do Iraque, declarando que a ONU reveria sua presença em zonas de conflito onde não houvesse segurança.

Vieira de Mello tinha em sua bagagem décadas de trabalho no Alto-Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) - o mais capilar órgão da ONU em termos de presença de campo no mundo. Seu gosto por estar em lugares difíceis parecia proporcional ao sonho juvenil de resolver os problemas do mundo. Ele deixou um legado incomensurável. Dentre suas ações, deve-se recordar: a repatriação terrestre de 360 mil refugiados cambojanos da Tailândia (1993), sem que houvesse mortes; a administração provisória do Kosovo, após a intervenção da Otan na antiga Iugoslávia (1999); e a condução bem-sucedida da administração transitória do Timor Leste (1999-2002), que inaugurou uma nova fase da ONU, como construtora de países. Em suas últimas funções exercidas cumulativamente - como alto-comissário da ONU para direitos humanos (2002-2003) e representante-especial do secretário-geral para o Iraque (2003), Vieira de Mello enfatizou, ainda que brevemente, sua atenção para o diálogo com a sociedade civil e sua inclinação por ações mais robustas da ONU, sob a égide do emergente princípio da responsabilidade de proteger.

Embora o reconhecimento mundial de sua atuação tenha se dado no fim dos anos 90, Vieira de Mello foi tardiamente descoberto em seu próprio país, daí a importância de o Itamaraty, a sociedade civil e a academia brasileira celebrarem sua memória.

Vieira de Mello gostava de se qualificar como um idealista-pragmático. Essa expressão, que contém duas qualidades, também pode ser lida como uma fórmula para a ONU atuar com mais eficácia num mundo complexo, dadas as restrições impostas por interesses nacionais das potências e a escassa margem de manobra para resgatar a paz em escombros de velhas e novas guerras. Seria esse o traço de uma diplomacia da ONU com identidade brasileira? É uma pergunta que ele parece ter deixado no ar.

*Gilberto M. A. Rodrigues é professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC e pós-doutor pela Universidade de Notre Dame (EUA)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.