Heuler Andrey/AFP
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Análise: Brasil entrou na crise entre EUA e Irã e tem muito a perder

De janeiro a junho deste ano, exportações brasileiras a Teerã somaram US$ 1,3 bilhão; impasse sobre navios iranianos na costa brasileira pode prejudicar o Brasil em suas relações comerciais

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2019 | 05h01

Não é um bom momento para abrir uma frente de atrito com o Irã – se é que há uma hora boa para isso. A república islâmica fundamentalista anda irritada com os EUA do presidente Donald Trump; o governo do presidente Hassan Rohani rejeita as acusações americanas de quebra dos compromissos assumidos no acordo de 2015, que estabeleceu regras para o programa nuclear iraniano.

A escalada militar já envolve mobilização de forças na região do Golfo Pérsico e atritos pontuais: a destruição, há cerca de um mês, de um caríssimo drone MQ-4C Triton, avaliado em US$ 123 milhões; o cerco a petroleiros no Estreito de Ormuz, além da interceptação e derrubada de uma aeronave não tripulada iraniana por um míssil disparado do porta-helicóptero USS Boxer. A aviação do Irã não confirmou a perda do drone, a Marinha americana mostrou um vídeo da explosão.

O Brasil está nessa crise – é um cenário lateral ao quadro central. Tem muito a perder. O impasse no reabastecimento dos cargueiros Bavand e Termeh, atracados no Porto de Paranaguá com suas cargas de ureia e milho, precisa de solução rápida do Ministério das Relações Exteriores para não pôr em risco uma relação bilateral vantajosa para o País – este ano, de janeiro a junho, as exportações brasileiras para Teerã somaram US$ 1,3 bilhão. As importações ficaram em US$ 26 milhões. Há negociações preliminares entre governos envolvendo aviões comerciais, a ampliação da planilha de produtos agrícolas e a venda de serviços.

Para um diplomata do Itamaraty ouvido pelo Estado “a equação deve ser esclarecida logo para que o custo negativo não caia na conta brasileira e, pior, antes que haja desdobramentos” – uma referência à possibilidade de conflito no Oriente Médio entre coalizões lideradas pelos EUA e Irã.

A guerra dos drones é um indicador significativo do tamanho do problema. Os EUA mantêm ativos cerca de 120 projetos de veículos aéreos de emprego militar robotizados ou de controle à distância. Alguns são de médio porte, como os de ataque ao solo da família Predator, em desenvolvimento há 25 anos. Outros envolvem gigantes do tipo X-47B, grandes como caças e capazes de pousar em porta-aviões. O Irã opera 20 modelos próprios, um deles, o Shaed 171, de desenho avançado e capacidade para missões de reconhecimento de longa duração, até 24 horas, ou bombardeio de precisão com quatro mísseis ar-terra.

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