Roberto Schmidt/AFP
Roberto Schmidt/AFP

Análise: Cinco crises simultâneas dos EUA

Uma das mudanças envolve uma quase-religião, a Justiça Social, para a qual a história é uma disputa entre opressores e oprimidos

David Brooks, The New York Times

29 de junho de 2020 | 04h00

Cinco mudanças gigantescas ocorrendo nos EUA hoje. A primeira delas é o fato de estarmos perdendo a luta contra a covid-19. Nosso comportamento nada tem a ver com a realidade ao nosso redor. Simplesmente cansamos e, por isso, desistimos. 

A segunda: todos os americanos, e em especial os americanos brancos, estão passando por um rápido aprendizado dos fardos suportados diariamente pelos americanos negros. Esse aprendizado continua, mas a opinião pública já está mudando com velocidade impressionante.

A terceira: estamos no meio de um realinhamento político. O público americano está rejeitando com veemência o Partido Republicano de Donald Trump. O sinal mais claro disso é o fato de o partido ter desistido de si, um culto à personalidade cujo líder está acabado.

A quarta: uma quase-religião está buscando o controle das instituições culturais americanas. Os acólitos dessa quase-religião chamada Justiça Social defendem uma ideologia simplificadora: a história é essencialmente uma disputa entre grupos, sendo alguns deles opressores e outros, oprimidos. Os pontos de vista não são explorações da verdade, e sim armas que grupos dominantes usam para manter sua posição na estrutura de poder. As palavras podem ser assim uma forma de violência que deve ser regulamentada.

A quinta: é possível que estejamos na beira do precipício de uma prolongada depressão econômica. O orçamento dos estados e dos lares está derretendo, algumas empresas estão falindo e outras, quase. A continuidade da emergência de saúde significa que a atividade econômica não pode ser totalmente retomada.

Essas cinco mudanças - cada qual refletindo uma imensa crise, e todas ocorrendo ao mesmo tempo - criaram um desastre moral, espiritual e emocional. Os americanos são hoje menos felizes do que em qualquer momento desde que a felicidade começou a ser medida em pesquisas, há quase 50 anos. Os americanos têm hoje menos orgulho do seu país do que em qualquer momento desde que a Gallup começou a medir esse sentimento, 20 anos atrás.

Os americanos olham para os demais países do mundo e observam que outros estão derrotando a covid-19 enquanto fracassamos. Os americanos olham ao redor e veem a violência do estado — retórica e real — voltada contra seus concidadãos. Os EUA não parecem um lugar muito excepcional. Em tempos assim, precisamos de uma teoria da mudança.

A mais estridente teoria da mudança está vindo do movimento pela Justiça Social. Esse movimento nasceu nas universidades de elite, e sua premissa básica diz que, se mudarmos as estruturas culturais, mudaremos a sociedade.

Os integrantes desse movimento prestam muita atenção aos símbolos culturais – palavras, estátuas, nomes de edifícios. Tomam o cuidado de repetir determinados slogans, como “defund the police” [redução do orçamento policial] – que podem ou não estar ligados a uma política pública. Repetem e celebram gestos simbólicos, como ajoelhar-se antes de um jogo de futebol americano. É uma forma de mudança bastante adequada em uma era de redes sociais, pois é muito performática.

Os ativistas da Justiça Social se concentram nas alavancas culturais do poder. Seu método mais comentado é o chamado cancelamento. Alguém (em geral de orientação levemente progressista) diz algo politicamente “problemático” e vê-se sem emprego como resultado da pressão. Dessa forma, são estabelecidas novas fronteiras quanto ao que pode e não pode ser dito.

Os ativistas da Justiça Social às vezes dizem que, se não gostamos de suas táticas, é porque não lutamos pela igualdade racial, pela justiça econômica ou seja o que for. Mas todos esses movimentos existiam muitos antes de a Justiça Social se apoderar desses temas e tentar mudar seus métodos.

O problema central é que a teoria da mudança da Justiça Social não traz muita mudança. As corporações se contentam em adotar alguns símbolos de conscientização e promover seminários, e bola para frente. Pior: esse método carece de uma teoria política.

Como, exatamente, toda essa agitação cultural vai resultar em leis que reduzam a disparidade de renda, criem melhores políticas habitacionais ou lidem com os grandes desafios citados acima? Essa parte nunca é enunciada. Na verdade, a histeria performática dificulta o trabalho político. Não se forma uma maioria governante insistindo na pureza ideológica.

No fim, a metodologia da Justiça Social não é a solução para o nosso problema, e sim um sintoma do nosso problema. Ao longo dos cinquenta anos mais recentes, graças à nossa ação, a política deixou de ser uma maneira prática de resolver nossos problemas em comum, convertendo-se em uma arena cultural onde expomos nossos ressentimentos. Donald Trump é o performer definitivo dessa arena paralisada.

Quem acha que a interação entre essas cinco mudanças gigantescas vai se encaixar em alguma narrativa ideológica organizada provavelmente vai se enganar. Sinto dizer, mas se alguém acha que podemos lidar com a desigualdade racial, a reforma da polícia militarizada e o enfrentamento de uma crise de saúde existencial radicalizando ainda mais a guerra cultural, me parece que essa pessoa está errada.

A superação desses problemas vai exigir a participação do governo. Serão necessárias leis, orçamentos, concessões complexas — todo o monótono trabalho governamental que mais parece material da TV Câmara do que do Instagram.

Conheço muitas pessoas que não se entusiasmam muito com Joe Biden, mas, graças a Deus, ele será o candidato do Partido Democrata. Biden começou sua carreira pública quando a ideia não era pregar sua fé, e sim criar coalizões engenhosas e propostas de lei. Ele transmite um espírito de empatia e amizade, e não de animosidade e cancelamento. O pragmático espírito do New Deal é um exemplo mais adequado para os dias que virão do que o espírito da teoria crítica da simbologia. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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