AFP PHOTO / Eric BARADAT
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Análise: Com o fim do Daca, Trump dá prioridade à sua base 

Para o presidente, a escolha é mais simples: atender à sua principal base de apoio ou se preocupar com as implicações para seu partido ao encerrar um programa tão popular

Philip Bump / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2017 | 05h00

Se você estava curioso para saber qual o papel do website Breitbart no fortalecimento da presidência de Donald Trump, vimos um exemplo bem representativo desse papel no fim de semana.

Nesta terça-feira, o governo decidiu acabar com o programa Daca (Ação Diferida para Chegada de Crianças, em tradução livre), implantado em 2012 por Barack Obama com a finalidade de regularizar a situação de imigrantes que chegaram ilegalmente ao país quando ainda eram menores de idade, permitindo que eles trabalhem legalmente nos Estados Unidos. Trump respondeu assim a um processo movido por procuradores-gerais de nove Estado, republicanos, que alegam que a medida sancionada por Obama é inconstitucional.

 

O Daca é um programa popular, e isso foi comprovado por várias pesquisas. No fim do ano passado, a Pew Research realizou uma sondagem para saber dos americanos se os indivíduos que chegaram aos Estados Unidos quando crianças deveriam permanecer no país. Três quartos dos indagados responderam que sim e um terço afirmou que a medida adotada era “muito importante”. Do número total de entrevistados, 82% eram eleitores democratas e 60% republicanos.  

 

No início deste mês, pesquisa da NBC News juntamente com a empresa Survey Monkey concluiu que 64% dos americanos apoiam o princípio norteador do Daca. E para 71% dos questionados, todos os imigrantes ilegais no país deveriam ser legalizados.

Mas Trump venceu a eleição graças, em grande parte, ao sentimento anti-imigrante. Sua posição dura nesse assunto foi crucial para criar no início uma base de apoio que o levou para as primárias e desde então se consolidou. É uma minoria no país, mas que teve muita influência sobre o pensamento político de Trump desde o início.

No caso do Partido Republicano, a oposição ao Daca é complicada. O partido vem lutando para encontrar um equilíbrio entre dois objetivos: atrair a crescente população hispânica do país e respeitar a forte oposição à imigração de muitos eleitores republicanos. O sucesso político de Trump deve-se ao fato de ele ter insistido nesse último ponto quando candidato; como presidente vem percebendo que não é tão simples. 

Aparentemente, a solução que encontrou foi deixar a decisão para o Congresso, o que fez na terça-feira pelo Twitter: “Congresso, prepare-se para fazer seu trabalho – DACA!”- Donald J. Trump (@realDonaldTrump) – 5 de setembro de 2017.

Trump deixou para o Congresso acomodar os dois extremos. E isto nos leva ao Breitbart. “A mídia promove pesquisas manipuladas sobre o Daca, e esconde as prioridades do público”, era uma manchete no website no fim de semana. O objetivo era claro: denegrir a popularidade do Daca. Se conseguirem convencer os membros do Congresso a se opôr a qualquer coisa parecida com o Daca, tanto melhor. 

Vamos supor que alguém acate essa retórica, que não deveria. O autor rebaixa as pesquisas como a feita pela NBC, qualificando-as de “push polls” (pesquisas que usam técnicas de telemarketing) que acabam direcionando o indivíduo questionado uma resposta específica, e elogia a sondagem feita pelo grupo Numbers USA, que defende uma limitação da imigração. O fundador desse grupo explicou a filosofia na qual se baseia sua pesquisa da seguinte maneira:

“Nossas pesquisas indagam ‘o que é mais importante? Garantir que os desempregados arranjem emprego ou aumentar o número de imigrantes?” Essa dupla opção, naturalmente, é o que se espera de uma … pesquisa de telemarketing.

Tais pesquisas nem dizem respeito ao Daca: o argumento usado é basicamente que os americanos querem políticas mais severas no campo da imigração no geral e provavelmente são contrários ao programa. E sugerem também que as pessoas são cautelosas quanto a oferecer sua real opinião porque temem retaliações - argumento utilizado antes da eleição de 2016 em que as pesquisas nacionais tiveram de corrigir as margens de voto.

O maior problema por trás do debate sobre o Daca para os republicanos é o preço político a ser pago por sua oposição ao programa. Americanos hispânicos nascidos nos Estados Unidos tendem a votar nos republicanos mais do que os nascidos fora do país, e isto poderá ser um elemento importante no longo prazo. Pesquisa realizada no ano passado pela Pew concluiu que a proporção de hispânicos americanos a favor dos democratas era de 62 contra 26, e de 70 contra 26 no caso dos nascidos fora do país.

Outra pesquisa conduzida em agosto pela Fox News, determinou que o apoio ao Daca era generalizado entre os hispânicos, independente do país de origem. Nove em cada dez hispânicos acham que as pessoas que imigraram para os Estados Unidos ainda crianças devem obter cidadania americana.

A longo prazo, a oposição ao Daca será prejudicial ao Partido Republicano? Difícil dizer. Obama viu sua popularidade crescer quando propôs a medida pela primeira vez, mas sua proposta coincidiu com a eleição de 2012 e sua popularidade junto aos hispânicos caiu depois. Quando anunciou medida similar para os pais dos imigrantes, no final de 2014 (DAPA) seu apoio entre os hispânicos disparou.

Para Trump, a escolha é mais simples: atender à sua principal base de apoio ou se preocupar com as implicações para seu partido ao encerrar um programa tão popular. O interessante no caso do Daca é que, desta vez, ele parece ter parado para pensar antes de se decidir pela primeira opção. / Tradução de Terezinha Martino

 

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