The White House/Handout via Reuters
The White House/Handout via Reuters

Análise: Com Trump, negacionismo surge para ajustar realidade à necessidade política

Preocupação do presidente em demonstrar força ou reorganizar fatos para reforçar sua visão de mundo o levou, várias vezes, a diminuir, ignorar ou zombar de tudo, desde as mudanças climáticas até a interferência russa nas eleições americanas

David Sanger / The New York Times , O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2020 | 04h30

Ainda doente e dependente de um potente coquetel de drogas antivirais e esteroides, o presidente Donald Trump transformou seu retorno altamente coreografado à Casa Branca em outro exemplo vívido do tema recorrente de sua presidência: a negação de fatos óbvios quando eles não se ajustam a suas necessidades políticas.

Sua mensagem, na noite de segunda-feira, e reiterada na terça-feira, foi que os americanos não tinham nada a temer do coronavírus e negava o que está evidente: a doença que ele disse que desapareceria com o aquecimento na primavera, “como um milagre”, já havia ceifado a vida de mais de 210 mil americanos.

Trump não estava realmente dizendo nada de novo – ele minimiza os efeitos do vírus desde janeiro – e sua presidência foi definida de várias maneiras pelo desdém às maiores ameaças que os EUA enfrentam. Sua preocupação em demonstrar força ou reorganizar fatos para reforçar sua visão de mundo o levou, várias vezes, a diminuir, ignorar ou zombar de tudo, desde as mudanças climáticas até a interferência russa no processo político americano.

Em março, quando o vírus esvaziou escritórios e começou a atingir as cidades, a negação passou de mortalmente grave para totalmente fatal. O próprio Departamento de Saúde e Serviços Humanos de Trump, com a ajuda da equipe da Casa Branca, se preparou para uma pandemia.

Mas o exercício perdeu um elemento-chave: um presidente que deixou claro que não queria ouvir notícias que colocavam a expansão econômica em risco, especialmente em ano eleitoral. “Ninguém nunca pensou em números como este”, disse Trump, em meados de março, quando sua história inicial de que o vírus estava sob controle começou a desmoronar.

Trump também parece incapaz, ou pelo menos relutante, em reconhecer o custo de negar a realidade. Ele continua a insistir que a economia terá uma recuperação em “forma de V”, embora o presidente do Federal Reserve que ele nomeou, Jerome Powell, tenha dito, na terça-feira, que os americanos deveriam se preparar para “um retrocesso mais longo do que o esperado”.

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Mas foi seu retorno à Casa Branca que mostrou que Trump está determinado a transformar sua infecção de vulnerabilidade em outro sinal de força, de triunfo. Ele declarou que os EUA deveriam seguir em frente, mesmo quando sua porta-voz anunciava que ela também tinha o coronavírus.

E o arrancar dramático de sua máscara ao retornar à Casa Branca, embora soubesse que encontraria membros da equipe assim que entrasse, reforçou sua determinação de negar os riscos – não para ele, mas para aqueles que trabalharam para ele. Não há nada que o presidente faça na Casa Branca, admitiu um de seus assessores, que não possa ser feito na ampla suíte presidencial do hospital militar Walter Reed. Exceto o fato de que, se ficasse, Trump deixaria transparecer que estava doente.

*DAVID E. SANGER É JORNALISTA, TEM 36 ANOS COMO REPÓRTER DO THE NEW YORK TIMES E ESTEVE EM TRÊS EQUIPES QUE GANHARAM PRÊMIOS PULITZER

 

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