Social media/Handout via REUTERS
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Análise: Como a Austrália ignorou o lobby de sua bancada da bala

Muitos australianos têm dificuldades para entender por que os americanos não conseguem limitar de forma sensata a posse de armas

Richard Glover* / W. Post , O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2017 | 05h00

Em 1996, houve na Austrália um massacre muito parecido com o de Las Vegas. Em Port Arthur, um jovem perturbado matou 35 pessoas usando armas semiautomáticas. Dias depois, o primeiro-ministro, John Howard, e o vice-premiê, Tim Fischer, anunciaram um plano para proibir este tipo de armamento. 

Fischer, um político conservador, pagou um preço alto. Seu partido representava o setor agrícola da Austrália, o eleitorado com o maior número de armas. Mas não foram apenas os proprietários de armas que reclamaram. Em vez de serem confiscados, os arsenais foram “comprados”. Para isso, foi criado um tributo de 0,2% sobre o seguro nacional de saúde foi utilizado para financiar o Programa Nacional de Recompra de Armas de Fogo. Resultado: 660 mil armas foram entregues e destruídas. Mesmo assim, Fischer continuou vice-premiê. Howard, também conservador, conquistou quatro mandatos no cargo de primeiro-ministro.

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Muitos australianos têm dificuldades para entender por que os americanos não conseguem limitar de forma sensata a posse de armas. Por isso, esta semana entrevistei Fischer em meu programa de rádio, em Sydney. 

Fischer é um homem educado, como a maioria dos produtores agrícolas australianos. Usa chapéu, ama ferrovias e jamais menosprezaria seus parceiros conservadores americanos. Mas, segundo ele, as leis sobre armas nos EUA precisam mudar. Na verdade, ele disse na entrevista que os australianos deveriam parar de viajar para os EUA, a não ser em caso de necessidade, em razão da violência armada.

No entanto, Fischer, reconhecendo as dificuldades dos americanos, confessa que o lobby das armas da Austrália é muito diferente dos EUA. Não tem a mesma capacidade de intimidação. Ele está certo. A cultura americana pelas de armas é diferente. 

Quando eu era criança na Austrália, quase todas as pessoas conhecidas que possuíam armas eram agricultores. Eles tinham uma arma para o caso de precisarem abater uma vaca doente. Um amigo de família, de tempos em tempos, caçava coelhos e cangurus, mas isto não era comum. O morador da cidade com uma arma na gaveta, ao lado da cama, jamais fez parte da vida normal do país. 

Assim, milhares de vidas foram salvas nos últimos 21 anos na Austrália. Foram salvas por políticos que decidiram que suas carreiras não eram o principal assunto a ser levado em consideração. Todos eles – incluindo Fischer – passaram por algo raro. Como bombeiros, médicos e enfermeiras, eles realmente salvaram vidas. Há alguém nos EUA que queira se unir a eles? / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É ESCRITOR E RADIALISTA AUSTRALIANO

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