Balazs Mohai/MTI via AP
Balazs Mohai/MTI via AP

Análise: Como dois protestos furiosos resumem a política da Europa

As manifestações que sacudiram duas capitais europeias no domingo contam uma história continental – um arco ilustrativo que começa com a ira populista e termina em desilusão e num crescente status quo autoritário

Ishaan Tharoor / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2018 | 05h00

As manifestações de massa que sacudiram duas capitais europeias no domingo contam uma história continental – um arco ilustrativo que começa com a ira populista e o sentimento antimigrante e termina em desilusão e num crescente status quo autoritário. Em Bruxelas, 5 mil manifestantes direitistas se opuseram à decisão de se assinar um pacto de migração costurado pelas Nações Unidas.

Houve cenas de violência: a polícia usou canhões de água e gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes que lançavam pedras e paralelepípedos. Um grupo tentou invadir os escritórios da Comissão Europeia. Cerca de cem pessoas foram presas.

Em Budapeste, 15 mil manifestantes protestaram contra leis promulgadas pelo governo não liberal do primeiro-ministro Viktor Orban. Uma das leis em questão cria um tribunal paralelo que na prática dá ao Executivo controle do Judiciário do país. Outra autoriza empregadores a cobrar 400 horas extras anuais dos empregados para impulsionar a produtividade.Críticos chamaram-na de “lei da escravidão”.

Protestos na capital húngara prosseguiram na segunda-feira, com manifestantes atacando o sistema público de rádio e televisão, visto como porta-voz do partido governante. Numa instância, vê-se o ódio nacionalista que se espalhou por muito da política europeia. Em outra, vê-se a inquietação com um governo profundamente nacionalista – que usa a retórica populista para justificar políticas que minaram a democracia húngara.

Essa inquietação pode refletir uma batalha política mais real que cresce no continente. A agitação na Bélgica começou depois que o primeiro-ministro Charles Michel, que chefia uma coalizão de centro-direita, viajou para Maarrakesh, no Marrocos, para assinar o pacto de migração, com mais 150 outros países. O pacto é um documento inócuo destinado estimular a cooperação internacional sobre migração. Ele estabelece 23 objetivos estruturados para que o mundo possa administrar melhor o fluxo de dezenas de milhões de migrantes.

Não é um tratado formal. A ONU não quer impor políticas migratórias ao mundo. No entanto, foi exatamente assim que partidos anti-imigração da Europa – sem falar na Casa Branca – tentaram enquadrar o acordo. O governo Trump informou no início do ano que não tinha interesse em juntar-se ao pacto. Outros governos europeus, incluindo o da Hungria e a coalizão populista da Itália, seguiram-no. Na Bélgica, um partido flamengo da frágil coalizão deixou o governo na semana passada. Depois dos protestos, Michel apresentou a renúncia ao rei da Bélgica.

Analistas sugerem que a decisão dos parceiros de Michel de sair foi um cálculo cínico, um lance da extrema direita para angariar apoio. Pode funcionar. No sábado, a líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, juntou-se ao antigo espalhador de rumores de Trump Steve Bannon – que está tentando levantar apoio dos nacionalistas do continente antes da próxima eleição europeia – num evento em Bruxelas convocado pelo Vlaams Belang, um partido flamengo ultranacionalista. “O país que assinar esse pacto estará obviamente assinando um pacto com o diabo”, disse Le Pen.

Mas, se as cenas em Bruxelas mostraram a força do sentimento anti-imigração nos cantos da Europa, o que está acontecendo em Budapeste reforça a sensação de que a maioria dos europeus tem problemas mais preocupantes na cabeça. Nenhum líder abraçou com tanto fervor o sentimento anti-imigração quanto o húngaro Orban, aplaudido por Bannon e outros da extrema direita europeia. Orban é primeiro-ministro há quase uma década e é visto como figura central do grupo de nacionalistas ascendentes da Europa Oriental e Central.

Como meu colega Griff Witte assinalou em uma extensa exposição, ele vem fechando suas garras em todos os níveis do poder, no que os críticos chamam de um autoritarismo assustador. Ele lançou uma virulenta cultura da guerra, demonizando migrantes e fustigando os liberais europeus. “Jornais e estações de TV foram comprados por executivos amigos e defendem o governo.Eleições ainda existem, mas são usadas pela maioria como justificativa para impor sua vontade, mais do que para dar uma voz às minorias.”

Os crescentes protestos antigovernistas da semana passada são um sinal de que uma oposição frustrada e encurralada ainda pode furar o balão nacionalista de Orban. No domingo, manifestantes da classe trabalhadora expressaram sua ansiedade com política econômica de um governo majoritário que, segundo críticos, está alimentando uma cleptocracia. “Eles não negociam com ninguém. Fazem o que querem e roubam tudo. Isso não pode continuar”, disse à France-Presse no domingo um trabalhador em transportes que se identificou como Zoli.

“Sentimos que esta é a última chance de deter a ditadura”,disse ao NYT Marton Bartha, de 28 anos, do lado de fora do QG da mídia estatal. O governo de Orban, claro, tentou ridicularizar as manifestações apelando parauma conhecida saída. Um porta-voz do Fidesz, o partido do governo, chamou os manifestantes de “patetas da rede pró-imigração de Soros”, referência ao financista judeu americano que Orban transformou em bode expiatório com sua demagogia.

Mas eles podem não conseguir minimizar eternamente a oposição. “Não sabemos até onde isso vai”, disse ao NYT Peter Kreko, analista político de Budapeste, referindo-se aos protestos. “Mas trata-se de uma massa significativa que pode estar dando início a um movimento mais amplo.”

O que virá em seguida não está claro. A eleição europeia do próximo ano será vista como um teste decisivo para uma série de temas – da imigração e a satisfação com um projeto supranacional como a União Europeia às preocupações públicas com a erosão do império da lei. Orban e os populistas de direita veem a UE e a ONU como cidadelas remotas de burocratas não eleitos, empenhados em solapar a soberania de Estados-nação.

Mas podemos estar vendo os limites do que tais arroubos populistas podem representar politicamente. Para Orban, um primeiro-ministro convencido de que a migração é um problema, a ironia é que ela pode na verdade ser uma solução para seu país. A reforma trabalhista húngara que desencadeou tanta fúria é uma reação a uma crise demográfica maior: a força de trabalho húngara, golpeada pela emigração para nações mais ricas da Europa, está estagnada e diminuída. Existe um remédio óbvio para isso, mas provavelmente não vai ser receitado por um demagogo antimigrante no poder. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.