ANÁLISE-Como Hillary deixou escapar uma liderança tão folgada?

Como a democrata Hillary Clintondeixou de ser o nome favorito para conquistar a vaga do partidonas eleições presidenciais dos EUA para transformar-se em umapré-candidata que hoje luta por sua sobrevivência política? Estrategistas da legenda e analistas de política afirmamque o caminho dela para a terra prometida da disputapresidencial enfrentou vários percalços. A campanha da pré-candidata deixou-se tomar pelo excesso deconfiança, não respondeu aos contagiantes apelos por mudança doadversário Barack Obama e não conseguiu controlar oex-presidente Bill Clinton, entre outras falhas. Quando lançou sua pré-candidatura, 13 meses atrás, Hillaryo fez com uma declaração autoconfiante: "Estou na disputa, eestou na disputa para vencer." Em agosto, a ex-primeira-damados EUA liderava com folga as pesquisas, aparecendo 18 pontospercentuais à frente de Obama, o segundo colocado. Ao lado de um marido politicamente brilhante, Hillary,atual senadora pelo Estado de Nova York, era vista pelosrepublicanos como o candidato a ser vencido nas eleiçõespresidenciais de novembro. Ela e seus assessores projetavam um ar de inevitabilidade,e a pré-candidata tentou colocar-se acima do bafafá criado porseus rivais imediatos dentro do Partido Democrata. Muitas autoridades de Washington concluíram que a senadoraderrotaria o candidato republicano na corrida pelo mais altocargo do país, já que muitos norte-americanos mostram-sedispostos a mudar de rumo após os oito anos do governo deGeorge W. Bush, um republicano. Naquele momento, porém, os eleitores começaram a confundiros donos do poder e os especialistas em pesquisa. Hillary perdeu as prévias de Iowa para Obama, venceu em NewHampshire, dividiu com o pré-candidato os Estados da"superterça" e depois perdeu 11 disputas consecutivas para osenador de Illinois. Um dia de profundas reflexões se aproxima, a próximaterça-feira, quando acontecerão prévias democratas no Texas eem Ohio. Qualquer resultado diferente de vitórias convincentesnos dois Estados poderá significar o fim da campanha deHillary. Stephen Hess, professor da Universidade George Washington,disse que a equipe da pré-candidata "aceitou como fatoconsumado os indícios do triunfo dela." "Havia um sentimento de que aquilo era o direito deles",afirmou. VONTADE DO POVO? Jim Duffy, um estrategista do Partido Democrata, disse quea campanha de Hillary "basicamente interpretou mal" a populaçãonorte-americana, acreditando que os eleitores prefeririam aexperiência dela aos apelos de Obama por uma mudança radical naforma como Washington conduz seus negócios. "Quando Obama pegou fogo, eles não dispunham de nada com oque responder porque a campanha toda deles baseava-se napremissa de que conhecem Washington e de que sabem como agirali de forma a obter resultados", afirmou. "Obama é o homem que acalenta esperanças e defendemudanças. Quem desejaria ficar contra ele?" Segundo Liz Chadderdon, estrategista também dos democratas,Hillary nunca teve uma mensagem própria e nunca criou umvínculo emocional com o eleitorado semelhante ao de Obama. "Regra Número 1: Insista em sua mensagem. Neste momento,alguém consegue dizer qual a mensagem da campanha dela?",afirmou Chadderdon. "Ela interpretou mal o que significa uma mudança. Mudar nãosignifica mudar as políticas de governo. Mudar significarrealizar uma mudança fundamental na forma como funciona o jogopolítico neste país." Os especialistas também afirmaram que o marido dela acaboupor prejudicá-la. Durante semanas, o ex-presidente falou tantoa respeito dele próprio quanto dela, lembrando osnorte-americanos dos bons tempos de seu governo, mas também dosproblemas enfrentados pelo país então. Na Carolina do Sul, Bill Clinton deixou indignados oseleitores negros ao dizer que a força de Obama ali equivalia ade outro candidato afro-americano, Jesse Jackson, que venceu noEstado em 1984 e 1988, mas que perdeu a vaga do PartidoDemocrata. Em suma, segundo um outro estrategista democrata que nãoquis ter sua identidade revelada: "Acho que, basicamente, elaperdeu sua chance. Acho que o momento dela passou. No dia emque Barack Obama ingressou na corrida, selou-se, de algumaforma, o destino de Edwards (John Edwards, ex-pré-candidatodemocrata) e de Clinton."

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