Win McNamee/AFP
Win McNamee/AFP

Análise: Como os EUA poderão combater a epidemia de opioides declarando estado de emergência?

Aumentar a disponibilidade de verbas pode eliminar obstáculos que prejudicam o fornecimento de assistência aos necessitados

Lenny Bernstein, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2017 | 18h00

No ponto em que se encontra a epidemia de consumo de opiáceos do país, o contra-ataque deve se fixar basicamente em tornar verbas rapidamente disponíveis: dinheiro para tratamento. Dinheiro para o antidoto naloxone em casos de overdose. Dinheiro para contratar mais pessoas para ajudar as cidades e estados sobrecarregados no enfrentamento da crise que matou cerca de 64 mil americanos no ano passado. 

Dificilmente o presidente Donald Trump identificará quaisquer grandes novas fontes de financiamento depois de declarar a situação uma emergência de saúde pública na tarde de quinta-feira. Mas seu pronunciamento oficial ajudará o governo a acelerar os recursos disponíveis para as comunidades, onde a epidemia se desenrola nas ruas diariamente e eliminará alguns obstáculos que prejudicam o fornecimento de assistência.

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De acordo com a Casa Branca, 175 pessoas morrerão de uma overdose de drogas hoje e todos os dias até que a crise seja freada. O governo, portanto, pode iniciar a partir da necessidade mais básica: manter vivas mais de 11,5 milhões de pessoas que consomem opiáceos prescritos para usos não médicos e mais 1 milhão de pessoas usando heroína.

"A menos que você mantenha as pessoas vivas, você não as encaminhará para tratamento”, disse Elizabeth Van Nostrand, professora assistente de política sanitária e gerenciamento de saúde na Escola de Pós-Graduação em Saúde Pública da Universidade de Pittsburgh.

Isso representa mais naloxona nas comunidades - muito mais - e mais dinheiro para treinar as pessoas para usar a droga. Gary Mendell, que fundou o grupo ativista Shatterproof depois da morte de seu filho, disse que a nação precisaria de naloxone “em todos os lugares há um extintor de fogo”.

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A naloxona, que é ministrada de várias formas, pode ser dispendiosa; a comissária de Saúde de Baltimore, Leana Wen, disse que a cidade está paga US$ 70 a US$ 90 por um pacote de duas doses.

Muitas vezes, são necessárias várias injeções ou pulverizações nasais para fazer uma única vítima reviver, especialmente se o indivíduo tiver uma superdosagem da poderosa droga das ruas, fentanil. Polícia e paramédicos às vezes precisam transportar naloxona para si próprios, caso tenham contato com fentanil. Alguns os transportam para seus cães farejadores de drogas.

A declaração de emergência permite que o governo federal acelere a convocação de mais pessoas e recursos para as ruas onde a naloxona é necessária. O secretário Eric Hargan, de Saúde e Serviços Humanos, falou em negociar preços mais baixos para as agências governamentais.

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E ele poderia divulgar instruções modelo para estados e cidades para emitir “ordens automáticas” que tornam o antídoto mais prontamente disponível nas farmácias em todo o país, da mesma forma que jurisdições como Baltimore, onde a medida já foi tomada.

A maior necessidade é de tratamento. Apenas um em cada 10 das 21 milhões de pessoas com transtorno de abuso de substâncias recebe qualquer tipo de tratamento especializado, de acordo com a comissão estabelecida por Trump para recomendar propostas.

Os obstáculos incluem uma política federal que proíbe o Medicaid (cuidados médicos para pessoas que não podem pagar por eles) de pagar internações em estabelecimentos com mais de 16 leitos. A declaração de emergência permitiria que O Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) concedesse isenções a qualquer estado que o solicitar.

"Esta é a maneira mais simples e rápida de aumentar a disponibilidade de tratamento em todo o país", escreveu a comissão em julho. Os opioides não são o único problema, porém. O país também está lutando contra o abuso de benzodiazepinas, cocaína e outras drogas. Mas os opioides - desde analgésicos sob prescrição até heroína e fentanil – respondem por mais da metade das mortes por overdose a cada ano.

A pesquisa mostra que o tratamento assistido com medicamentos (MAT) com drogas como a metadona e a buprenorfina é a abordagem mais efetiva. Reduz as overdoses, mantém as pessoas em tratamento e reduz o número de recidivas (um problema particularmente difícil no abuso de opiáceos), disse a comissão do presidente. Mas apenas 10% das instalações de tratamento de drogas estão o oferecem.

Parte do problema é a crença ultrapassada de que tal tratamento apenas substitui uma substância que vicia por outra. Mas o Medicare (para pessoas com mais de 65 anos) não cobre o tratamento assistido com medicamentos. E em alguns lugares, como nas instalações par veteranos e serviço de saúde para indígenas, há uma escassez de provedores treinados.

Sob o estado de emergência, o HHS poderia mais rapidamente fazer contratações temporárias de pessoas e enviá-las onde elas são necessárias, incluindo as regiões mais afetadas do país, tais como, como Apalaches, Meio-oeste e Nova Inglaterra. A declaração do presidente também permitirá que pessoas em áreas remotas recebam tratamento por telemedicina.

Na quarta-feira, o Comissário da FDA, Scott Gottlieb, fez um apelo pelo uso mais amplo do tratamento assistido por medicamentos e disse que sua agência emitiria novas orientações aos fabricantes para promover o desenvolvimento de novas terapias, incluindo aquelas que tratam uma variedade mais ampla de sintomas.

O governo também pode assumir o papel de incentivar médicos e outros do setor a obter melhor treinamento na prescrição de opioides; menos de 20% dos mais de 1 milhão de profissionais licenciados para fornecer substâncias controladas têm treinamento sobre como prescrever opioides com segurança, observou a comissão.

A administração vai convocar o Departamento de Trabalho para fornecer dinheiro da subvenção, se disponível, aos estados que criem programas de treinamento de trabalho para pessoas em recuperação. Muitas vezes, pode ser difícil recuperar dependentes para encontrar trabalho por causa de antecedentes criminais ou brechas em seu histórico de emprego. / The Washington Post (Tradução de Claudia Bozzo)

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