ANÁLISE-Cresce peso negativo de Palin na candidatura McCain

Ridicularizada por comediantes, desprezada por conservadores influentes e abalroada por entrevistas desastradas, Sarah Palin vem se provando uma aposta arriscada do republicano John McCain na corrida pela Casa Branca, numa semana em que sua capacidade para ser vice-presidente está sendo cada vez mais questionada. "Palin está preparada? Faça-me o favor", é o título de um artigo na última edição da revista Newsweek a respeito dessa caçadora de alces que é também governadora do Alasca. "Sarah Palin está absolutamente desqualificada para ser vice-presidente", escreveu o editor de Internacional da revista, Fareed Zakaria. "Ela é uma política empolgada e carismática que fez algumas coisas boas no Alasca. Mas nunca passou um só dia pensando em qualquer questão nacional ou internacional importante, e este é um péssimo momento para começar", argumentou. Palin vem sendo ironizada até por colegas republicanos por causa das constrangedoras entrevistas dos últimos dias às redes CBS, Fox News e ABC News. A história mostra que os norte-americanos em geral votam no presidente, não no vice, e é inegável que o apelo popular dela atrai multidões bem maiores do que as que seguem o veterano senador Joe Biden, candidato a vice democrata, que tem uma propensão a cometer gafes verbais. Ambos debatem na quinta-feira pela TV. Mas a governadora de 44 anos, que logo após sua indicação foi vista como um sopro de ar fresco na candidatura de McCain, especialmente junto ao eleitorado feminino, agora acumula cada vez mais problemas -- não só na relação com a imprensa, mas por causa das suspeitas de que teria cometido abuso de poder como governadora para demitir um ex-cunhado policial. A colunista conservadora Kathleen Parker, que de início se entusiasmou com ela, na sexta-feira simplesmente pediu que Palin desista para "salvar McCain, seu partido e o país que ela ama". "Estudando rapidamente ou não, ela não sabe o suficiente sobre economia e política externa para deixar os norte-americanos confortáveis com uma presidente Palin, caso as condições exijam sua promoção", escreveu ela na publicação conservadora National Review. Parker sugeriu que Palin deixasse a campanha alegando razões pessoais, como a vontade de passar mais tempo com o filho recém-nascido. Ainda no começo do mês, a colunista elogiava a "força, convicção e determinação" da candidata. "FILHA NO TRABALHO" O popular programa humorístico Saturday Night Live no fim de semana zombou da declaração de Palin de que governar o Alasca lhe dá experiência em política externa, devido à proximidade física do Estado com a Rússia. Já o apresentador David Letterman disse que as reuniões de Palin na semana passada com dirigentes mundiais na ONU pareciam ser parte do "dia de levar a sua filha ao local de trabalho". Até a terça-feira passada, Palin, nunca havia conhecido um dignitário estrangeiro. David Brooks, colunista conservador do jornal The New York Times, considera a candidatura dela "constrangedora". Mas alguns analistas políticos dizem que ela mantém o mérito de atrair evangélicos e outros segmentos conservadores, cuja capilaridade pode ser benéfica a McCain em diversos Estados estratégicos. Além disso, argumentam, a expectativa de um bom desempenho dela no debate contra Biden já está tão baixa que ela pode até surpreender positivamente. "Quando mais entrevistas ela dá, mais nervosos ficam não só os moderados, mas também alguns republicanos conservadores. Mas até agora eles em geral a vêem como um benefício", disse Julian Zelizer, professor de Política na Universidade Princeton. "Eles não a escolheram para agradar o David Brooks. Escolheram-na para agradar os ativistas conservadores. No máximo os ataques contra ela por parte do Saturday Night Live ou dos colunistas do New York Times irão alimentar algum ressentimento e animação em relação a ela. Nesse aspecto ela continua sendo um bônus para McCain." O candidato defendeu sua colega de chapa na segunda-feira, dizendo a eleitores de Ohio que "ela será minha parceira na reforma de tudo o que está quebrado em Washington". No domingo, McCain a havia defendido depois de ela contradizer a posição oficial dele a respeito de divulgar publicamente ataques contra alvos terroristas no Paquistão. O ex-pré-candidato republicano Mitt Romney, que chegou a ser cotado como vice de McCain, questionou a estratégia de "esconder" Palin da imprensa. "Acho que foi um erro segurar Sarah Palin para apenas três entrevistas e focar microscopicamente em cada entrevista", disse Romney à MSNBC. "Acho que seriam muito mais sábios se deixassem Sarah Palin ser Sarah Palin. Deixem-na falar com a mídia, deixem-na falar com o povo."

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