ANÁLISE-Crise andina abala planos de integração sul-americana

A crise surgida nos Andes depois de aColômbia ter atacado um acampamento de guerrilheiros dentro doEquador ameaça atrapalhar os planos de integração sul-americanae representa um teste às ambições acalentadas pelo Brasil defigurar como líder da região. No conflito mais grave surgido entre os paíseslatino-americanos em mais de uma década, o Equador e aVenezuela, nações aliadas, deslocaram soldados para suasfronteiras com a Colômbia em resposta à operação militar esuspenderam suas relações comerciais e diplomáticas com ovizinho. A Organização dos Estados Americanos (OEA) criticou naquarta-feira a ação da Colômbia, um país afinado com os EstadosUnidos, mas não chegou a condená-la. O Brasil, a maior potência da região, deseja apaziguar oconflito entre os campos pró e anti-EUA além de salvaguardarseu objetivo de integrar a América do Sul, como contrapeso aosinteresses econômicos dos europeus e dos norte-americanos naregião. "A crise ameaça a integração sul-americana e especialmentea expansão do Mercosul", afirmou Virgílio Arraes, professor derelações internacionais na Universidade de Brasília. Participam do Mercosul o Brasil, a Argentina, o Paraguai eo Uruguai. A Venezuela, cujo presidente, Hugo Chávez, é inimigodos EUA e deseja fazer a América Latina trilhar o caminho dosocialismo, encontra-se em meio ao processo para entrar nobloco, apesar da resistência encontrada no Brasil e noParaguai. O envolvimento de Chávez no conflito atual renova aspreocupações sobre a adesão da Venezuela, afirmou Arraes. A crise também coloca em dúvida o lançamento, previsto paraocorrer nos próximos meses, da União das Nações Sul-Americanas(Unasul), uma entidade que seguiria o modelo da União Européia(UE). "O sonho de uma união política na América Latina seráadiado", afirmou José Botafogo, chefe do Cebri, uma instituiçãovoltada ao estudo de questões de política internacional, comsede no Rio de Janeiro. EVITANDO O RECRUDESCIMENTO O Brasil gastou milhões de dólares na construção deestradas e pontes com os países vizinhos e realizou concessõesna área econômica para preservar a unidade do Mercosul. O país anseia por ganhar mais peso na arena da diplomaciainternacional e por obter uma cadeira no Conselho de Segurançada Organização das Nações Unidas (ONU). "Qualquer coisa que ameace a integração (latino-americana)é grave porque debilita nossa posição diante do mundo,enfraquece a posição da América do Sul diante de outros blocoseconômicos", disse o ministro brasileiro das RelaçõesExteriores, Celso Amorim. "Quanto menos unidos estivermos, mais facilmente seremosvítimas em negociações (comerciais)", afirmou o chanceler,apesar de ter ressaltado que o Brasil poderia ganhar força seconseguisse evitar o agravamento da crise e abrisse o caminhopara uma solução duradoura dela. A tarefa imediata é evitar uma escalada militar do conflitoe ajudar uma comissão da OEA encarregada de investigar o ataquede 1o de março, realizado pela Colômbia no Equador. Mas o maior desafio será aproximar os dois lados do grandeabismo ideológico aberto na região, afirmaram especialistas. O governo norte-americano custeia os militares colombianose vê no presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, seu mais fortealiado em uma região marcada por um forte sentimento de repulsaaos Estados Unidos. Chávez é aliado do Equador e envia grandes somas dedinheiro para os governos esquerdistas da América Latina. "A presença norte-americana na Colômbia complica asrelações desta com seus vizinhos. Ninguém na América Latinasente-se confortável diante da forte presença norte-americanaali", afirmou Botafogo. A maior parte da América Latina ficou do lado do Equador. Segundo o Brasil, o governo dos EUA, que declarou seu apoioà operação militar da Colômbia, deveria manter-se afastado dacrise. "Quanto mais conseguirmos manter isso dentro da esferalatino-americana, maiores as chances de encontrarmos umasolução e evitarmos a polarização", disse Amorim.

RAYMOND COLITT, REUTERS

06 de março de 2008 | 16h32

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