Hamad l Mohammed/Reuters
Hamad l Mohammed/Reuters

Análise: Crise com regime iraniano é reflexo da Doutrina Trump 

Trump, travado, impotente e provavelmente blefando. Essa é a lição que os líderes do Irã parecem ter aprendido nos últimos meses 

Bret Stephens* / NYT, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2019 | 06h00

Thomas Jefferson advertiu contra alianças permanentes. John Kennedy estava pronto para pagar qualquer preço e aguentar qualquer tipo de pressão. Teddy Roosevelt nos aconselhou a falar baixo e carregar sempre um porrete. E agora há Donald Trump. Travado, impotente e provavelmente blefando. Essa é a lição que os líderes do Irã parecem ter aprendido nos últimos meses. 

Em maio, houve quatro ataques a petroleiros no Estreito de Ormuz. Em junho, mais dois navios-tanque foram atacados e um vídeo de vigilância dos EUA flagrou um barco patrulha iraniano nas proximidades de um dos navios danificados. No mesmo mês, o Irã abateu um drone americano de US$ 130 milhões. Em julho, apreendeu um navio britânico e sua tripulação. Agora, o alvo foram instalações petrolíferas na Arábia Saudita. Os acontecimentos evidenciaram algumas conclusões. 

A primeira é que a fraqueza é estimulante. Nos meses anteriores ao ataque, Trump optou por não usar a força para enviar uma mensagem ao Irã. Ele tentou, sem sucesso, marcar um encontro com o presidente iraniano e, depois, demitiu seu conselheiro de Segurança Nacional – John Bolton, que defendia uma resposta dura a Teerã.

A segunda conclusão é que as sanções são necessárias, mas insuficientes para alterar o comportamento de Teerã. Embora não exista dúvida de que a capacidade do Irã tenha sido prejudicada pela pressão econômica, o regime sobreviveu a coisas muito piores. Certamente, o Irã pode se dar ao luxo de esperar Trump deixar o cargo.

Uma terceira conclusão é que podemos estar testemunhando o começo do fim da era americana no Oriente Médio. Trump parece pedir orientação saudita para responder aos ataques da semana passada. Ao mesmo tempo, não esconde seu desejo de se retirar da Síria e do Afeganistão e demonstra relutância em ordenar ações armadas que mantenham o papel policial dos EUA no mundo. 

Isso é música para os ouvidos dos isolacionistas americano, incluindo os críticos de Trump, à esquerda. Mas isso também deve assustar os aliados tradicionais dos EUA no Oriente Médio. Esse é um raciocínio que deve passar pela cabeça de Robert O’Brien, novo conselheiro de Segurança Nacional de Trump, que assume o cargo em breve com o otimismo trêmulo de uma nova noiva que se junta a Henrique VIII no altar. 

*É COLUNISTA

 

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