REUTERS/Marco Bello
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Análise: Crise da Venezuela começa a se transformar em impasse

Apesar da campanha internacional pela saída de Maduro do poder, presidente venezuelano e chavismo não dão sinais de enfraquecimento

Ishaan Tharoor, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2019 | 05h00

O governo Trump sustenta que o governo de Nicolás Maduro está nos seus últimos dias no poder. Os Estados Unidos vêm liderando uma campanha de pressão internacional com sanções mais severas contra o regime de Caracas, e dezenas de países ocidentais reconheceram o líder da oposição,  Juan Guaidó, como presidente interino da Venezuela. A desastrosa crise econômica do país não dá sinais de melhora e segundo a Casa Branca o apoio dos militares venezuelanos a Maduro está se desintegrando.

“Temos muitas informações indicando que são muitos os venezuelanos claramente insatisfeitos com este regime e querem um fim dele, e muitos membros do Exército sentem a mesma coisa”, afirmou na sexta-feira Elliott Abrams, enviado especial dos Estados Unidos para a Venezuela.

“Maduro está nos seus últimos dias, o que pode durar um mês ou dois, uma semana ou um dia”, afirmou o presidente colombiano Iván Duque ao The Washington Post em entrevista que concedeu em três de março numa base militar em Bogotá.

Duque e o governo Trump esperavam que uma manobra no mês passado para forçar as forças de segurança venezuelanas a permitirem a entrada de comboios de ajuda humanitária vindos da Colômbia a entrarem no país precipitaria um motim contra Maduro. Mas não foi o que ocorreu. Pelo contrário, militares leais a Maduro bloquearam a passagem do comboio e se uniram em apoio ao regime. Embora centenas de soldados venezuelanos tenham desertado para a oposição, cruzando a fronteira, o Exército como um todo permanece firme do lado de Maduro.

Ambos os lados usaram os confrontos para reforçar sua mensagem: uma legião de críticos de Maduro, incluindo políticos americanos, culpou o regime pelo incêndio de diversos caminhões transportando ajuda. Mas uma investigação do The New York Times publicada no domingo trouxe novas evidências de que o fogo foi desencadeado inadvertidamente por manifestantes de oposição. Maduro já havia afirmado que o incidente havia sido uma operação orquestrada por Duque e a oposição venezuelana para culpá-lo.

No sábado Maduro declarou em um comício em Caracas ter vencido o “golpe” fomentado por potências imperialistas de fora. Ao mesmo tempo, em outra parte da capital, Guaidó discursou para milhares de partidários apesar da forte presença policial. No domingo o assessor de segurança nacional americano, John Bolton, insistiu, na TV nacional, que o fato de Guaidó não ter sido preso é prova de que Maduro sabia que “se desse essa ordem, ela não seria obedecida”.

Mas por mais tênue que seja seu controle do poder, Maduro não mostra nenhum sinal de ceder o comando. Como reportou Mary Beth Sheridan, do Post, isto se deve em grande parte ao fato de que muitas figuras dentro do Exército venezuelano estão cautelosas com uma transferência do governo para a oposição. Maduro e seu predecessor, Hugo Chávez, consolidaram seu controle do Estado por meio do clientelismo, envolvendo militares de muitos escalões.

Afastar de Maduro membros do alto comando, e mesmo oficiais de escalão inferior, não é tarefa fácil, explicou o cientista político Javier Corrales, apontando para facções diferentes dentro do Exército que a oposição precisa convencer.

“Existe uma estrutura militar padrão, que na Venezuela são os soldados de carreira profissional. Depois há grupos que incluem soldados que trabalham junto com o Exército e com agentes de inteligência cubanos para reprimir os dissidentes. E há ainda os generais burocratas que apóiam Maduro porque têm um bom emprego na direção de empresas estatais, e soldados que estão enriquecendo com o tráfico em mercados ilícitos, incluindo o de droga. E finalmente há os agentes de Maduro encarregados da repressão”.

Diante do seu profundo envolvimento na preservação do status quo, muitos militares não se encantam com as promessas da oposição de uma anistia para os desertores. “A lei de anistia não é muito atrativa”, afirmou Félix Seijas, cientista social da Universidade Central da Venezuela disse a Sheridan. “Os que estão comprometidos, estão muito comprometidos. A leis de anistia não os beneficiará. Os que não estão comprometidos não precisam dessa lei”.

Os observadores alertam agora para o impasse que vem se armando no que foi visto em outros contextos autoritários – onde apesar do isolamento e da disfunção econômica o regime, respaldado por uma vanguarda militar, se agarra ao poder e desmoraliza a oposição. “O que ocorrerá se você não rompe essa estrutura militar e o país continuar a deteriorar? Teremos o mesmo cenário de Cuba, do Irã, da Síria ou do Zimbábue”, disse Luis Vicente León, diretor da empresa Datanalisis de Caracas.

E durante todo este tempo os venezuelanos comuns veem sua vida piorar. Um blecaute gigantesco atingiu o país no fim de semana, desativando a rede de telecomunicações, aprofundando as dificuldades enfrentadas pelo já debilitado sistema médico e tornando a luta diária por alimento e água potável mais complicado. Faltas de energia intermitentes continuaram durante todo o fim de semana.

De acordo com a oposição, pelo menos 17 pessoas morreram em hospitais em decorrência do blecaute; o transporte público ficou paralisado impedindo os médicos de irem ao trabalho. No domingo meus colegas encontraram uma mulher de 24 anos em um hospital em Caracas cujo bebê morreu porque não havia nenhum cirurgião pediatra presente.

Guaidó convocou novos protestos na segunda-feira em resposta ao mau tratamento pelo governo dos cortes de energia. Maduro qualificou a situação de sabotagem externa, mas para especialistas “o blecaute foi resultado da corrupção, da falta de manutenção, do êxodo de trabalhadores qualificados e do custo elevado de peças importadas quando pagas em moeda venezuelana”, informaram meus colegas.

Oscar Hernandez, engenheiro de 40 anos, disse ao The Post que estava estocando velas numa loja a leste de Caracas. “Estou me preparando para o apocalipse”, disse ele. “O governo é demais incompetente para resolver isto no curto prazo”.

 

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