EFE/SHAHZAIB AKBAR
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Análise: escalada da crise entre Arábia Saudita e Irã ameaça processo de paz na Síria

Analistas dizem que processo frágil de negociação do conflito sírio sofre se Arábia Saudita e Irã não tiverem postura convergente 

O Estado de S. Paulo

05 Janeiro 2016 | 08h54

A crise entre a Arábia Saudita e o Irã, dois dos protagonistas do conflito sírio, ameaça a continuidade do frágil processo iniciado pela comunidade internacional para tentar encontrar uma solução política para essa guerra. "O conflito terá, sem dúvida, um impacto negativo" no processo, lamentou na segunda-feira 4 Samir Nashar, membro da oposição síria no exílio. As conversações entre representantes do regime e da oposição síria, sob os auspícios da ONU, previstas para o final de janeiro em Genebra, já eram por si só hipotéticas.

"Já se anunciavam difíceis, quase impossíveis, e o conflito entre a Arábia Saudita e o Irã endurecerá as posições", acrescentou o encarregado da Coalizão Nacional Síria.

A crise entre a monarquia sunita e a República Islâmica xiita eclodiu neste fim de semana, após a execução na Arábia Saudita de Nimr Baqir al-Nimr, um clérigo xiita crítico do regime saudita. Sua morte causou indignação na comunidade xiita.

No Irã, a embaixada saudita foi atacada por manifestantes. Em resposta, Riad anunciou a ruptura das relações diplomáticas com Teerã. O reino do Bahrein, um fiel aliado do vizinho saudita, e o Sudão, também romperam relações com o Irã.

Essa escalada é o ponto culminante de uma crise entre os dois grandes rivais persa e árabe, que competem pela liderança regional há anos, intervindo em guerras, como a do Iraque, do Líbano e do Iêmen - onde Riad está diretamente envolvido militarmente contra os rebeldes xiitas huthis apoiados por Teerã - e, obviamente, na Síria, onde Teerã apoia o regime de Bashar Assad e deslocou milhares de "conselheiros militares" no terreno, enquanto Riad prometeu a queda do presidente sírio e apoia financeira e militarmente grupos rebeldes, principalmente salafistas.

Crise complexa. Nessa crise por si só complexa, tanto pelo número de atores envolvidos quanto pelos diferentes interesses de cada um, "a rivalidade iraniana-saudita foi um dos motores desde o princípio" e sua intensificação pode afetar os esforços na busca de uma solução política, avalia Yezid Sayigh, do centro de reflexão Carnegie Middle East Center.

A crise entre Riad e Teerã "apaga alguns dos progressos feitos durante as últimas semanas para conseguir que Arábia Saudita, Irã e seus parceiros mantenham diálogos diretos", avalia o centro nova-iorquino de reflexão Soufan Group.

Todos os atores envolvidos no conflito sírio - apoios árabes e ocidentais da oposição de um lado, aliados russos e iranianos de Damasco do outro - se sentaram pela primeira vez em torno de uma mesma mesa de negociações durante as duas reuniões internacionais em outubro e novembro do ano passado em Viena.

Nos dois encontros, os diplomatas ocidentais puderam constatar como é profunda a desconfiança entre sauditas e iranianos. Eles evocam, por exemplo, uma discussão intensa entre o chefe da diplomacia iraniana, Mohamed Javad Zarif, e seu colega saudita, Adel al Jubeir, sobre a definição do termo "terroristas".

As negociações em Viena desembocaram, pela primeira vez em quase cinco anos de um conflito que deixou mais de 250 mil mortos, na redação de um mapa do caminho internacional para a Síria, adotado por unanimidade pelo Conselho de Segurança da ONU em 19 de dezembro.

Este mapa do caminho prevê negociações inter-sírias neste mês, um governo de transição nos próximos seis meses e eleições em 18 meses. "Tínhamos feito progressos com esse retorno à mesa (de negociações) de todos os protagonistas e a resolução da ONU marcava o compromisso da comunidade internacional. É crucial que as negociações se mantenham, mas o processo se fragilizou", avaliou, preocupada, uma fonte ligada ao dossiê.

Para o pesquisador Karim Bitar, que trabalha em Paris, "a escalada complicará ainda mais qualquer perspectiva de avanço na Síria, duas semanas depois da morte de Zahran Allush", um poderoso líder rebelde, apoiado por Riad, que tinha aceito o princípio de negociações inter-sírias - ele foi morto em um bombardeio reivindicado pelo regime sírio.

Tanto Washington, quanto Paris, Roma e Berlim têm pedido calma ao Irã e à Arábia Saudita. "Não há dúvida de que as crises (na Síria e no Iêmen), assim como outras, só podem ser resolvidas se a Arábia Saudita, potência sunita, e o Irã, xiita, estiverem dispostas a dar um passo em conjunto", resumiu Berlim na terça-feira. /AFP

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