REUTERS/Marco Bello
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Análise: Crise venezuelana pesa em campanha no Equador

Alinhamento ideológico de Rafael Correa e Nicolás Maduro, somado a situação caótica do país caribenho, virou arma de campanha

Alexandra Ulmer e Alexandra Valencia* / REUTERS, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2017 | 21h09

A sombra da crise política da Venezuela pairou sobre a eleição presidencial no Equador, processo em que o governo de esquerda de Rafael Correa, alinhado com o presidente bolivariano Nicolás Maduro, espera prolongar um mandato que já dura uma década.

O candidato opositor Guillermo Lasso duplicou as acusações de que seu rival governista, Lenín Moreno, transformará o país andino numa nova Venezuela, referindo-se à medida do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) daquele país na semana passada, que retirou os poderes da Assembleia Nacional e a imunidade parlamentar dos deputados, decisão que os inimigos de Maduro denunciaram como um passo na direção de uma ditadura e, após pressão dentro e fora do país, foi revogada no sábado.

“Um golpe acabando com a Assembleia Nacional! É o que vocês querem?”, questionou Lasso, candidato da direita, a uma multidão de seguidores em um comício na cidade de Guayaquil. “Então vamos realizar mudanças. Mudar é evitar o sofrimento da Venezuela!.”

O governo de Correa ridicularizou as acusações como tentativas desesperadas do candidato rival, ex-banqueiro, para assustar os eleitores e encobrir seus planos de eliminar os programas sociais. “Eles tentam confundir a população argumentando que o Equador vai se tornar uma outra Venezuela”, disse o ministro do Exterior Guillaume Long na sexta-feira. “Não, o Equador não é a Venezuela.”

A economia equatoriana, como a da Venezuela, depende muito do petróleo e sofre uma desaceleração. Mas a situação do Equador está muito longe da crise que assola a Venezuela, onde milhões de pessoas sofrem com a escassez de alimentos e a inflação desenfreada. Correa sempre foi acusado de reprimir a imprensa, lotar as instituições com partidários e ser hostil com as empresas. Para os críticos, é a mesma situação que estão vendo no “Socialismo do Século 21” da Venezuela.

Lasso acusou “mercenários estrangeiros” - dizendo que são venezuelanos - de tentar atacá-lo com pedras, cassetetes e facas depois de um jogo de futebol na terça-feira. O governo equatoriano rejeitou a acusação. A crise na Venezuela tornou-se um fato relevante na disputa.

A eleição é acompanhada de perto, uma vez que nos últimos meses observamos na América Latina uma virada para a direita e o antes sólido bloco de esquerda perdendo espaço em meio à retração dos preços das commodities e crescentes acusações de corrupção.

Com os noticiários latino-americanos dominados pela crise venezuelana e grupos regionais emitindo comunicados condenando as medidas tomadas pela Suprema Corte daquele país, toda essa agitação está mais presente do que nunca no Equador.

Em entrevista em fevereiro, Lasso disse que Rafael Correa “quer deixar o seu próprio Maduro no Equador”, alusão a Hugo Chávez, que pediu o apoio dos venezuelanos a Maduro, ex-líder sindical e motorista de ônibus. Mas a principal preocupação do eleitor equatoriano é a economia e uma crise externa não deve mudar muito a sua preferência de voto.

Os eleitores de Lasso rejeitam Maduro de qualquer maneira, ao passo que, para os partidários da esquerda a culpa da crise venezuelana é da elite empresarial com fome de poder, que procura sabotar o socialismo na América Latina.

A crise venezuelana parece estar se dispersando, com o Supremo recuando no sábado em sua controvertida decisão de assumir o lugar do Congresso de oposição, diante dos protestos e da condenação internacional.

Lasso na presidência representaria a um voto a favor de uma suspensão da Venezuela da Organização dos Estados Americanos (OEA), se a proposta avançar, a menos que Maduro antecipe as eleições. E mesmo alguns eleitores do governo de Correa exigem uma posição mais firme contra o presidente venezuelano. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* ALEXANDRA ULMER E ALEXANDRA VALÊNCIA SÃO JORNALISTAS

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