REUTERS/Leah Millis/File Photo
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Análise: Crises se avolumam e Trump adota uma abordagem perigosa

Considerando o desprezo de Trump pelos limites legais do seu cargo e sua frequente admiração por ditadores estrangeiros, não era difícil imaginar que ele pelo menos tentasse cancelar ou adiar votação por decreto

Alexander Burns* / The New York Times, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2020 | 05h00

Há muitos anos, o pesadelo dos seus adversários tem sido que o presidente Donald Trump, diante da perspectiva de derrota na eleição de 2020, declararia por decreto presidencial o adiamento da votação ou o seu cancelamento.

Não importa que presidente algum tenha este poder, que o momento das eleições federais tenha sido fixado no século 19 e que a Constituição estabeleça uma data inadiável para o término do mandato presidencial.

Considerando o desprezo de Trump pelos limites legais do seu cargo e sua frequente admiração por ditadores estrangeiros, não era difícil imaginar que ele pelo menos tentasse esta jogada.

Mas quando chegou o momento, na quinta-feira, em que Trump sugeriu pela primeira vez que a eleição poderia ser adiada, sua proposta pareceu tão impotente quanto previsível – menos pela espantosa afirmação da sua autoridade do que mais um queixume de que suas perspectivas políticas enfraqueceram em meio a uma crise global de saúde pública.

Longe de ser um homem forte, Trump ultimamente se tornou um importuno em seu próprio governo, promovendo teorias da conspiração médica, não desempenhando um papel construtivo tanto na gestão da pandemia do coronavírus quanto na negociação de um plano de salvação econômica no Congresso – e lamentando-se continuamente da injustiça de tudo isso.

“Será um grande embaraço para os EUA”, tuitou Trump, afirmando sem evidência alguma que a votação por e-mail favorecia as fraudes. “Adiar a eleição até que as pessoas possam votar de maneira adequada  e segura???”.

Trump atacou outras vezes a legitimidade das eleições americanas, incluindo a de 2016 que o tornou presidente. Mesmo depois de ganhar o Colégio Eleitoral naquele ano, Trump lançou dúvidas sobre o voto popular e defendeu sem qualquer fundamento que a vantagem substancial de Hillary Clinton foi possível graças a votos ilegais.

Tendo isso como precedente, nunca houve muitas dúvidas – certamente entre os seus adversários –  de que Trump tentaria minar a eleição se parecesse provável que ele a perderia. Embora Trump não tenha poder para mudar a data da eleição, há uma grande preocupação entre os democratas de que seus indicados em Washington ou seus aliados nos governos dos Estados possam realizar um esforço em grande escala para ameaçar o processo de votação.

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Seu tuite a respeito de um adiamento da eleição tem um ponto de exclamação de autocomiseração em uma das fases de sua presidência que se define, não pelo impiedoso acúmulo de poder executivo, mas por uma abdicação quase total da liderança presidencial em todas as frentes de uma emergência nacional.

Na realidade, Trump levantou a ideia na forma de uma interrogação pouco depois que o Departamento do Comércio informou que, no trimestre passado, a produção econômica dos EUA sofreu uma contração à taxa mais acelerada de que se tem registro na história.

Diante deste desastre econômico, qualquer outro presidente mergulharia de cabeça no processo de ordenar aos seus subordinados nos altos escalões e líderes no Congresso de elaborar uma vigorosa resposta do governo.

Em vez disso, esta semana, Trump esteve ausente das conversações sobre a ajuda econômica, porque o crucial subsídio aos desempregados deverá expirar, e o presidente da Reserva Federal, Jerome Powell, alertou publicamente que a recuperação do país está demorando.

E qualquer outro presidente diante de uma pandemia viral virulenta, em enormes regiões do país, pelo menos estaria tentando enviar uma mensagem clara e coerente sobre segurança da população. Ao contrário, Trump continua promovendo uma droga de nenhuma eficiência comprovada, a hidroxicloroquina, como uma cura milagrosa em potencial, e a exigir que escolas e empresas reabram rapidamente – mesmo tendo declarado também que poderia ser impossível realizar uma eleição segura.

A presidente da Câmara, Nancy Pelosi, a democrata mais poderosa do governo, respondeu o tuíte de Trump simplesmente postando no Twitter as palavras da Constituição declarando que é o Congresso, e não o presidente, que estabelece a data das eleições nacionais. A deputada Zoe Lofgren, democrata pela Califórnia, que preside a comissão da Câmara que supervisiona as eleições, sugeriu em termos de modo algum incertos que o tuíte de Trump é outro sintoma de sua incapacidade de dominar o coronavírus.

“Somente o Congresso pode mudar a data das nossas eleições”, afirmou, “e em nenhuma hipótese consideraremos a possibilidade de fazer isto para coadunar-se com a inepta e caótica resposta do presidente à pandemia do coronavírus, ou dar crédito às mentiras e à desinformação que ele espalha quanto à maneira em que os americanos podem depositar o seu voto com segurança, inclusive para a sua saúde”.

Os republicanos, que tipicamente respondem ao presidente com uma mistura de evasão ou sem fazer comentários, foram bastante diretos em sua rejeição à sugestão de Trump – embora nenhum deles procurasse mostrar um perfil de coragem, criticando uma presidência descontrolada. Os líderes mais poderosos do partido no Congresso imediatamente mataram a ideia de transferir a eleição, embora um número considerável de legisladores se esquivasse inteiramente da questão quando confrontados pelos repórteres.

 “Não se engane: a eleição se realizará em New Hampshire no dia 3 de novembro. Fim da história”, disse no Twitter o governador Chris Sununu de New Hampshire, um republicano que se candidatou à reeleição.

O senador Mitch McConnell, o líder da maioria, menosprezou a sugestão de Trump em uma entrevista na televisão WINKY em Kentucky. “Nunca na história do país, no meio de guerras, da depressão e da Guerra Civil jamais tivemos uma eleição federal marcada na hora, e nós encontraremos uma maneira de fazer isto no dia 3 de novembro”, afirmou McConnell. “Nós cumpriremos isto, qualquer que seja a situação; teremos eleições no dia 3 de novembro como está marcado."

O timing de Trump para o seu tuíte revelou até que ponto ele se tornou uma figura ruidosa, isolada no governo e na vida pública do país. Além de não dar uma resposta crível à nação sobre a pandemia do coronavírus, não fez qualquer tentativa de desempenhar o papel tradicional de um presidente, acalmando o país em momentos de temor e oferecendo o seu consolo  nos momentos de sofrimento.

Nunca esteve mais claro do que, na quinta-feira, quando Trump passou a manhã postando uma mescla de tuítes incendiários e prosaicos enquanto seus antecessores imediatos – Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton – se reuniam em Atlanta para os funerais de John Lewis, congressista e herói dos direitos civis.

Enquanto as pessoas enlutadas lotavam a Igreja batista Ebenezer, Trump tinha outras questões em mente, como a hipotética fraude eleitoral e, como aconteceu, a comida italiana.

“Apoiem a Patio Pizza e seu maravilhoso proprietário, Guy Caligiuri, em St. James, Long Island (NY)", tuitou o presidente, referindo-se a um restaurante que afirmou ter enfrentado reações ruins por apoiar Trump. "Grande Pizza!!!”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*É JORNALISTA

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