REUTERS/Maxim Shemetov
REUTERS/Maxim Shemetov

Análise: decisão pode incluir até a China em uma corrida armamentista

O grande risco provocado pela saída dos EUA do tratado nuclear é o de uma corrida armamentista

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2019 | 05h00

Há motivos para preocupação com a saída dos Estados Unidos do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário – e não apenas por causa da possibilidade de eventuais ações pontuais com armas atômicas. O grande risco é o de uma corrida às armas de imenso poder de destruição, uma disputa tecnológica entre os EUA, a Rússia e, embora fora dos acordos originais, também a China e eventualmente países do segundo círculo, como a Coreia do Norte e Israel. 

A retirada dos americanos pode começar hoje, neste fim de semana de inacreditáveis 30 graus negativos no norte dos EUA. Em Washington, no entanto, a força-tarefa que reúne assessores do presidente Donald Trump, funcionários do Departamento de Estado e do Pentágono, vai continuar trabalhando na modelagem das novas opções para o acordo. Não há muita confiança.

Na Comissão das Forças Armadas do Congresso, o deputado Mac Thornberry revelou desconfiança “quanto à disposição dos russos em cumprir regras”. O congressista acusa os russos de terem investido durante dez anos no desenvolvimento de sistemas de armas de características proibidas nas negociações de 1987: de alcance intermediário, entre 500 quilômetros e 5 mil quilômetros, eventualmente disparados a partir de plataformas terrestres. O respeito a esses limites aliviaria o temor dos governos da Europa em relação a ataques nucleares no cenário do continente, densamente urbanizado e habitado.

A arma da discórdia no momento da ruptura é um míssil muito novo, preciso, pequeno e com grande capacidade de intimidação. O Novator 9M729 (SSC-8 na designação do Tratado do Atlântico Norte), de 8 metros e cerca de 1,7 tonelada.

A ogiva nuclear de 450 quilos é um modelo compacto, com menor peso e alto rendimento. O sistema de guiagem e de navegação digital, com orientação espacial, emprega “tecnologias inéditas”, segundo relatório do Centro Nacional de Inteligência Aeroespacial da Força Aérea (NASIC, na sigla em inglês) dos EUA. 

O míssil começou a ser desenvolvido 15 anos atrás, mas só fez o primeiro voo de teste em 2015. De acordo com o NASIC, recebeu várias outras denominações e em um ensaio recente atingiu alvos a 2.500 km. Seria montado sobre carretas blindadas com reparos de quatro tubos lançadores – o que é proibido nos termos da convenção bilateral que os Estados Unidos estão abandonando. 

No dia 23 de janeiro, o Novator foi mostrado a jornalistas especializados em Moscou. O chefe do projeto e provável chefe da primeira unidade operacional a receber o 9M729, o general Mikhail Matveesvki, disse que a arma é transportada só por aviões e navios, e assim não desrespeita o tratado, “mas contribui para a percepção da transparência e da adesão da Rússia aos pactos internacionais”. Na apresentação, o míssil não pôde ser visto: estava contido dentro do casulo do qual é disparado. 

O presidente Donald Trump autorizou o início das operações de modernização do arsenal nuclear americano, formado por cerca de 6,8 mil ogivas, bombas guiadas, torpedos e cargas diversas. Apenas a manutenção do conjunto implica despesas orçamentárias estimadas em US$ 25 bilhões por ano.

As versões mais recentes de determinados tipos, como a 12.ª geração da B-61, construída nos anos 60, têm capacidade de realizar bombardeio de precisão empregando pequenas cargas atômicas – na faixa de até 4 quilotons. O suficiente para arrasar a Ilha de Manhattan, em Nova York, ou inutilizar um grande campo de petróleo.

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