REUTERS/Eric Miller
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Análise: Democrata precisa entender o que houve em Minneapolis

Cada cena e tumulto e saque deve valer cerca de 10 mil votos para a campanha de reeleição de Trump

Thomas L. Friedman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2020 | 05h00

Há algo nos membros da equipe de Donald Trump que considero quase admirável: quando dizem a verdade, eles realmente dizem a verdade — de uma forma tão crua que acabamos nos indagando: “Será mesmo que eles disseram isso em voz alta?”

Certamente foi o que pensei quando Kellyanne Conway declarou na semana passada: “Quanto maior o caos, a anarquia e o vandalismo, quanto mais a violência reinar, melhor será para deixar mais claro quem é a melhor escolha para a segurança pública, a lei e a ordem".

Melhor será? Como pode ser “melhor” se houver mais caos, anarquia, vandalismo e violência? Não pode ser melhor… A não ser para uma pessoa: Donald Trump. Infelizmente, é verdade: cada cena e tumulto e saque deve valer cerca de 10 mil votos para a campanha de reeleição de Trump. Basta perguntar a Kellyanne.

Assim, Joe Biden tem um verdadeiro desafio nas mãos. Para mobilizar a maioria ele precisa garantir de maneira crível a um número suficiente de eleitores que leva a sério tanto a violência quanto suas raízes sociais, econômicas e policiais. Na segunda-feira, seu discurso dizendo que “saquear não é protestar”, em Pittsburgh, foi um bom começo.

Mas, para entender o tamanho do problema enfrentado por Biden nessa eleição, devemos estudar as dificuldades em minha cidade natal, Minneapolis, envolvendo o policiamento. Trata-se de um enfrentamento entre adversários improváveis e, com isso, verdades profundas são reveladas.

De um lado estão os superliberais da Câmara de Vereadores de Minneapolis. Em junho, após a morte de George Floyd nas mãos de policiais locais, eles votaram pelo início de um processo para remover das obrigações municipais o requisito de manter um departamento de polícia. Esse seria substituído por “um departamento de segurança comunitária e prevenção à violência", com um diretor com “experiência em serviços comunitários fora da área do policiamento, incluindo abordagens de saúde pública e/ou justiça restaurativa". Uma divisão de “oficiais de paz licenciados” responderia a esse diretor.

Entre os que se opõem à mudança está uma crescente coalizão de líderes comunitários negros e brancos do norte de Minneapolis, historicamente a região que abriga a comunidade negra de Minneapolis (nasci na zona norte, em 1953, quando a região também abrigava a comunidade judaica). Eles estão preocupados com a ideia de desmontar a força policial e trocá-la por uma alternativa vaga em um momento em que seus bairros têm vivido uma alta acentuada nos tiroteios entre gangues, saques e tráfico de drogas — tudo isso exacerbado pela pandemia, pelo desemprego fora de controle e por policiais desmoralizados, que, após a morte de Floyd, nem sempre dispõem do efetivo ou da motivação para atender a uma ocorrência.

Para Entender

O caso George Floyd

Homem negro de 46 anos foi morto por policial branco durante abordagem; desencadeados pelo assassinato, protestos contra o racismo e a violência policial eclodiram nos EUA e no mundo

No dia 18 de agosto, essa coalizão formada por quatro famílias negras e quatro famílias brancas da zona norte de Minneapolis entrou com um processo contra a Câmara de Vereadores e o prefeito, Jacob Frey, para forçá-los a manter no departamento de polícia de Minneapolis o número mínimo de policiais exigido pela lei. As famílias alegam que as medidas da Câmara afastaram muitos policiais do cargo e limitaram a contratação de substitutos, colocando os bairros da zona norte em perigo.

Os querelantes não desejam ser mal interpretados: também desejam uma reforma profunda e bem pensada para a polícia. Mas eles querem simultaneamente uma força policial melhor e policiais em número suficiente para proteger seus filhos e suas ruas: recusam a polícia atual e também a ideia de dispensar completamente o departamento, substituindo-o por algo incerto.

O jornal Star Tribune, de Minneapolis, informou no dia 1.º de agosto que, desde a morte de George Floyd, no fim de maio, o departamento de polícia da cidade perdeu mais de 100 policiais, mais de 10% do seu contingente, “exigindo demais dos recursos do departamento em meio a uma onda de violência”. O jornal acrescentou que o departamento tem orçamento para 888 policiais este ano, mas pode perder até um terço de sua força de trabalho até o fim de 2020 em decorrência de demissões voluntárias, demissões e licenças médicas para o tratamento de estresse pós-traumático decorrente da violência que se seguiu à morte de Floyd.

Em editorial publicado no dia 24 de agosto no Star Tribune, Sondra e Don Samuels, dois dos querelantes negros, explicaram o motivo do processo. Conheço ambos, e estão muito envolvidos na melhoria de seus bairros na zona norte. Sondra é diretora executiva da Northside Achievement Zone, e o marido dela, Don, foi vereador, integrou o conselho da secretaria de ensino de Minneapolis e é diretor executivo da ONG local Microgrants.

“Queremos uma reforma radical da polícia, com todos os cidadão sendo tratados como seres humanos por todos os policiais, e não somente pelos ‘bons policiais’ que já conhecemos bem", escreveram eles. “Defendemos as medidas de reforma do prefeito e do chefe de polícia, que incluem alternativas comunitárias ao policiamento que funcionam em conjunto com a nossa força policial.”

Eles também argumentam que o legislativo estadual “precisa mudar as regras de arbitragem que frequentemente obrigam a recontratação de maus policiais depois de estes terem sido demitidos por conduta abusiva".

Mas, eles disseram: “Não vamos sacrificar a segurança da nossa comunidade na busca pelas elevadas metas da Câmara de Vereadores sem nenhum plano para implementá-las. Nos meses que se seguiram ao assassinato de George Floyd, vimos uma explosão no crime e nos homicídios. Cinco de nós moramos à distância de poucas casas uns dos outros. Quatro de nós têm crianças em casa. Eis o que vimos somente no nosso quarteirão nos dois meses mais recentes:

“O carro de uma mãe levou oito tiros, com o bebê dela a bordo. Outro carro levou quatro tiros. Uma bala atravessou a porta da frente e a parede do nosso vizinho. Uma mulher foi espancada a chutes até quase morrer no meio da rua. O tráfico de drogas foi retomado em duas casas, com movimentação sem precedentes, e conflitos que resultam em brigas e tiroteios.”

Além das lojas maiores, como Saks e Nordstrom, vandalizadas na semana passada no centro de Minneapolis após a circulação de boatos segundo os quais a polícia teria matado outro homem, que na verdade cometeu suicídio, uma série de negócios da zona norte pertencentes a donos negros foram saqueados ou vandalizados durante os protestos contra a morte de George Floyd, e agora muitos proprietários têm medo de reconstruir seus empreendimentos.

Pensemos no caso da Northside Achievement Zone, administrada por Sondra. Ela trabalha com pais, estudantes e parceiros locais na zona norte de Minneapolis, onde a maioria da população é negra, para acabar com a pobreza que afeta seguidas gerações e fomentar a estabilidade das famílias. A organização têm ajudado a construir uma comunidade saudável e a possibilitar aos americanos negros que concretizem seu potencial. Mas esses resultados não podem ser produzidos em meio ao caos.

“Temos que encontrar uma forma de dizer simultaneamente que vidas negras importam e os protestos com desfecho violento não podem ser aceitos nem destruir nossa cidade", disse-me Sondra.

Mas temos de dizer mais uma coisa, prosseguiu ela: é o que disse Martin Luther King Jr. no fim dos anos 60, algo tão relevante naquela época quanto hoje.

King denunciou os tumultos como “contraproducentes", mas também destacou que “um tumulto é a linguagem daqueles que não são ouvidos. E o que é que os Estados Unidos deixaram de ouvir? Eles não ouviram o negro se queixar da piora de sua situação nos anos mais recentes. … Não ouviram que as promessas de liberdade e justiça não foram cumpridas. Não ouviram que grandes segmentos da sociedade branca estão mais preocupados com a tranquilidade e a preservação do status quo do que com a justiça, a igualdade e a humanidade. Assim, em um sentido concreto, os verões de revolta do nosso país são causados pelos nossos invernos de atraso".

Para King, o progresso econômico e a justiça social “são garantias absolutas de prevenção dos tumultos".

Motivo pelo qual Biden pode ser o verdadeiro candidato da “lei e da ordem” nessa eleição, caso se apresente da maneira certa. Afinal, ele não defende o fim da polícia, e sim o seu aprimoramento (é assim que se constrói em todos o respeito à lei), e Biden sabe que uma ordem sustentável só pode vir de um presidente interessado em construir comunidades saudáveis e justas, e não de um presidente para quem seria “melhor" politicamente se elas forem despedaçadas. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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