Kevin Lamarcque/Reuters
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Análise: Depoimento de Comey humilha presidente

Trump não pode mudar o fato de que sua equipe de inteligência nacional está procurando determinar se uma potência estrangeira tentou manipular a eleição

Jennifer Rubin / W. POST, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2017 | 05h00

Antes de o diretor do FBI, James Comey, iniciar seu depoimento perante a Comissão de Inteligência da Câmara, o presidente Donald Trump estava de volta, tuitando compulsivamente - e ressaltando a percepção crescente de que sua alegação de que o presidente Barack Obama o havia “grampeado” é absurda, seu apego à realidade é fugaz e sua preocupação com a interferência russa na eleição em seu favor é palpável.

Ele tuitou: “James Clapper e outros afirmaram que não há nenhuma evidência de que Potus (sigla em inglês para o presidente dos EUA) fez conchavo com a Rússia. Essa história é notícia falsa e todo o mundo sabe”. Trump certamente recebera uma saraivada de críticas de congressistas republicanos afirmando que não havia nenhuma evidência de grampo. 

O presidente tinha motivos para estar ansioso. Comey confirmou que o FBI está investigando a interferência russa nas eleições, incluindo vínculos com membros da campanha de Trump, e se ele cometeu algum crime. Pouco tempo depois, Comey foi para o ataque. Sobre indícios de grampo, como Trump alegou em tuítes, o diretor do FBI foi categórico: “Não tenho nenhuma informação que sustente esses tuítes”.

Esse depoimento não é “falso”. Trump não pode mudar o fato de que sua equipe de inteligência nacional está procurando determinar se uma potência estrangeira tentou manipular a eleição. Por mais que ele tente, não há maneira de Trump desconsiderar ou esconder essa realidade. O impassível Comey fornecendo secamente um depoimento fleumático, definitivo, foi convincente, como foi o do chefe da Agência de Segurança Nacional (NSA), Michael Rogers, que, com o cenho franzido, respondeu a muitas das perguntas com um seco “sim” ou “não”.

A declaração de Comey não foi surpresa, mas foi, mesmo assim, devastadora. Ouvir o chefe do FBI chamar o presidente de mentiroso ou de teórico da conspiração é provocador, se não humilhante, para o chefe do Executivo. E, como se nota no tuíte matinal, Trump agora parece desesperado, pueril e vulnerável. Ele está se enredando nas próprias mentiras grandiosas. E, em algum nível, ele deve saber disso.

Talvez agora os republicanos possam parar de tratar seriamente os arroubos do presidente. Eles precisam começar a chamá-los pelo que realmente são: mentiras e acusações desvairadas para distrair da investigação muito real de tentativas russas de fazer pender a eleição a seu favor.

Em algumas frases breves, Comey eviscerou qualquer credibilidade que Trump ainda poderia ter. Resta saber se a agência de inteligência vai encontrar ou não evidências de conluio. No entanto, o que nós sabemos é que Trump não será capaz de se safar com uma mentira nem distrair o público.

O deputado republicano do Texas Will Hurd, que compareceu ao programa This Week, da ABC, no domingo, fez uma observação interessante: “Isso vai entrar na história da Mãe Rússia como a maior ação secreta de campanha, mas não porque o presidente Trump venceu”, disse. “Não houve nenhuma manipulação das máquinas de contagem de votos. Vai entrar como a maior ação secreta porque ela impeliu - criou uma fissura, quer seja real ou apenas aparente, entre a Casa Branca, a comunidade de inteligência e o público americano.”

Bem, ela também entrará como a maior ação secreta da história porque a Rússia tentou manipular o resultado da eleição e ajudou na campanha de Trump. Além disso, Vladimir Putin convenceu uma parcela considerável do eleitorado americano de que Trump é ilegítimo. Uma pesquisa mostra que 57% de eleitores jovens entre 18 e 30 anos o consideram ilegítimo. E, pior, Moscou convenceu muitos americanos de que a palavra do presidente dos EUA não é confiável. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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