Martin Bernetti/AFP
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Análise: Desigualdade é pano de fundo da revolta no Chile

Não são problemas que surgiram agora, eles se arrastam há anos e alguns têm sua origem na ditadura de Augusto Pinochet, mas se fundiram nos últimos dias em um levante furioso sem precedentes na história recente do Chile

Gerard Soler, EFE, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2019 | 05h00

O aumento do preço da passagem do metrô é somente a ponta do iceberg da violenta revolta social que foi registrada no Chile. O pano de fundo é a desigualdade social, a concentração extrema da riqueza, a impunidade diante da corrupção, a desconexão da elite política e a precariedade da saúde, as aposentadorias e a educação. 

Não são problemas que surgiram agora, eles se arrastam há anos e alguns têm sua origem na ditadura de Augusto Pinochet, mas se fundiram nos últimos dias em um levante furioso sem precedentes na história recente do Chile, um país que se considerava um oásis em uma convulsionada América Latina.

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O anúncio do presidente chileno, Sebastián Piñera, de revogar o aumento da tarifa do metrô não conseguiu aplacar os saques e o vandalismo que foram registrados em várias áreas de Santiago e outras cidades do país, pois a violência já se tornou um modo de manifestar o descontentamento com o modelo político, econômico e social.

Aposentadoria:

O sistema de previdência é um dos pontos mais criticados na sociedade chilena. O modelo foi estabelecido durante a ditadura de Pinochet e exige que os trabalhadores depositem mensalmente cerca de 12% do salário em contas individuais gerenciadas por entidades privadas – conhecidas como Administradores de Fundos de Pensão (AFP). Os AFPs investem no mercado em busca de lucrar com os fundos, mas não devolvem aposentadorias decentes e os aposentados recebem muito menos dinheiro do que ganhavam quando trabalhavam – a média de aposentadorias pagas em agosto foi de US$ 220, pouco mais da metade do salário mínimo (US$ 422). Paradoxalmente, militares e policiais participam de um sistema separado, que oferece aposentadorias muito mais altas.

Educação de baixa qualidade:

Educação universitária foi gratuita até 1981, quando a ditadura facilitou a criação de universidades privadas. As novas universidades se multiplicaram e tiveram liberdade para cobrar mensalidades. Ao mesmo tempo, o Estado cortou investimentos nas instituições públicas, que também começaram a cobrar tarifas para permanecer competitivas. O resultado foi uma variedade de universidades privadas caras e de qualidade duvidosa, que obrigam que estudantes solicitem empréstimos para financiar os estudos. Muitos passam os primeiros anos da carreira endividados.

Saúde pública privada e precária:

Trabalhadores devem contribuir com 7% do salário em planos de saúde e podem optar pelo sistema público (Fonasa) ou privado (Isapres). Cerca de 14 milhões são afiliados à Fonasa, criticada pelo péssimo atendimento, longas filas e instalações precárias. A Isapres, que cobre pessoas com renda mais alta, oferece planos mais caros e menor cobertura para mulheres e idosos, uma discriminação que Piñera tenta corrigir com uma reforma.

Alto custo de vida:

Preço dos imóveis subiu 150% na última década, enquanto os salários cresceram apenas 25%. Além do aumento do metrô, os chilenos reclamam também dos 10% a mais na conta de luz e da alta no preço dos remédios.

Corrupção:

Nos últimos anos, escândalos de corrupção envolveram militares e carabineros. Há também casos de financiamento ilegal de campanha de partidos de esquerda e de direita e nenhuma vontade dos órgãos públicos de punir os responsáveis.

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