T.J. Kirkpatrick/NYT
T.J. Kirkpatrick/NYT

Análise: Dificuldades históricas

Biden precisará, como Lincoln, por em marcha um denodado esforço de pacificação e, como Roosevelt, enfrentar uma séria crise econômica

Roberto Abdenur, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 05h00

Em toda a história dos EUA, só dois presidentes confrontaram dificuldades tão graves quanto aquelas que Joe Biden terá pela frente. Abraham Lincoln, com a guerra civil do início dos anos 1860, e Franklin Roosevelt, com as consequências do crash do final dos anos 20. Lincoln venceu a guerra, aboliu a escravidão e começou um processo de reconciliação do país. Roosevelt encontrou uma economia devastada, em depressão, com inéditos níveis de desemprego e pobreza.

A isso respondeu com o New Deal, pelo qual injetou recursos em projetos capazes de gerar empregos, criou uma nova estrutura de assistência social e promoveu  inovadora repactuação entre governo, trabalhadores e capital. Biden precisará, como Lincoln, por em marcha um denodado esforço de pacificação de uma sociedade profundamente cindida politicamente e polarizada ideologicamente, agora sob a ameaça de movimentos da mais radical extrema-direita, alimentada por teorias da conspiração, fake news e sentimentos racistas, e estimulada pela retórica incendiária de Trump. Uma extrema direita predisposta ao uso da violência contra políticos, instituições republicanas e contra a própria democracia.

Não são animadoras as perspectivas de êxito nessa empreitada, e isso em função de dois fatores. O primeiro diz respeito ao futuro do Partido Republicano. Desde o assalto ao Capitólio uma ala mais moderada do partido se mostra disposta a buscar novos rumos, com alguma autocrítica, afastamento de Trump e disposição de dialogar com os democratas.

Mas o problema está em que uma maioria se mostra ainda submetida à influência de Trump, que seguramente continuará a conturbar o ambiente político. Nos próximos meses e anos Biden deparará com o que os órgãos de inteligência consideram ser o maior risco atual  à segurança nacional: a ameaça de terrorismo doméstico, não mais daquele que provinha do jihadismo islâmico.

À semelhança de Roosevelt, Biden terá de enfrentar uma crise econômica quase tão séria como a da era da Depressão. E cuja superação depende de rápido progresso no combate à pandemia. Biden tem bons planos: uma substancial e imediata ajuda financeira a famílias e empresas impactadas pela má situação da economia, forte aumento dos gastos públicos e acelerado esforço de vacinação. Esses serão dois novos New Deals.

Mas Biden terá de lidar com ainda dois outros desafios que merecem outros New Deals: o racismo sistêmico e as mudanças climáticas. Não será fácil. A problemática do racismo está inserida no contexto da ideologia de extrema direita, que congrega setores  apegados ao supremacismo branco e dispostos ao uso da violência contra movimentos como o Black Lives Matter. Quanto às questões ambientais, os planos do novo presidente são ambiciosos. Não se trata apenas de regressar ao Acordo de Paris. O que ele almeja é uma ampla reformatação da economia, com  recurso a energias limpas e renováveis e a aceleração do processo de descarbonização das atividades produtivas.

Finalmente, ocorre-me um outro New Deal, este voltado para fora do país. Trata-se de algo como um novo “pacto” com a comunidade internacional, mediante  uma  reviravolta  na política externa, o regresso ao multilateralismo, o respeito às Nações Unidas e outras organizações multilaterais, entre elas a OMS e a OMC, o revigoramento de parcerias e a implementação de uma diplomacia voltada para o diálogo e a busca pragmática de compromissos e entendimentos.  Biden atuará também com vistas ao reforço das democracias mundo afora.

Quanto ao Brasil, a nova política externa dos EUA não será favorável ao governo Bolsonaro, dado ser ele hostil ao multilateralismo e às próprias Nações Unidas, leniente com a devastação da Amazônia e negacionista em relação às mudanças climáticas. E dada também a posição antidemocrática do presidente, que ameaça o País com a ideia de que só as Forças Armadas têm condições de determinar se vamos viver em uma democracia ou recair numa ditadura.

FOI EMBAIXADOR DO BRASIL NOS ESTADOS UNIDOS, NA CHINA E NA ALEMANHA

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