REUTERS/Leah Millis
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ANÁLISE: Divisão ameaça reduzir grupo e transformá-lo em G6

O G-7 sempre foi um clube informal. Com os comentários sobre a Rússia, Trump está instigando isto

Adam Taylor, Washington Post, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2018 | 05h00

Ao partir de Washington para Quebec, para a reunião de cúpula anual dos líderes do G7, grupo das sete maiores economias do mundo, o presidente Donald Trump sugeriu que a cúpula deveria contar com outro participante: Vladimir Putin, presidente da Rússia.

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“Eu amo o nosso país. Tenho sido o maior pesadelo da Rússia...mas dito isto, acho que a Rússia deveria participar do encontro”, disse Trump a jornalistas na Casa Branca. “Pode não ser politicamente correto, mas temos um mundo para governar... Deveriam permitir a volta da Rússia”.

Seus comentários enfureceu seus críticos, que não só acham que o presidente têm se mostrado inusitadamente brando com a Rússia, mas também que a interferência nas eleições ordenada por Putin é a razão de ele estar na Casa Branca.  O presidente não mencionou que a Rússia foi expulsa do G-7 e depois do G-8 em resposta à anexação da Criméia por Moscou em 2014.

Mas com os comentários sobre a Rússia e as observações hostis com relação a aliados tradicionais dentro do G-7 como França, Canadá e Grã-Bretanha, Trump atingiu bases potencialmente frágeis do grupo. Seus participantes aumentaram e diminuíram nas últimas quatro décadas, refletindo seu caráter pontual que foi outrora a maior força do grupo – mas pode se tornar sua maior fraqueza.

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Durante a Guerra Fria a necessidade de um fórum reunindo as principais democracias do mundo começou a ganhar força no início da década 70. Um dos primeiros encontros deste tipo foi realizado na Casa Branca sob o governo Nixon, em 1973, onde o secretário do Tesouro na época, George Schultz, se reuniu com os ministros das Finanças da Grã-Bretanha, França e  Alemanha Ocidental.  Mais tarde o Japão aderiu ao grupo que se tornou conhecido como Grupo dos Cinco.

Em 1975, com o ingresso da Itália, realizou-se o encontro do então Grupo dos Seis. Com suas reuniões anuais G-6 continuou a crescer. Desde 1981 a União Europeia participa como membro não especificado. E com o fim da Guerra Fria, havendo espaço para o grupo se expandir, foi incluída a Rússia, agora oficialmente uma democracia, que ingressou em 1998 depois de alguns anos de participação parcial, formando o G-8.

A expansão do grupo foi possível por dois fatores. Em primeiro lugar, não existia nenhum critério para a entrada: a única imposição era de que um país tinha de ser uma democracia com uma economia desenvolvida. Em segundo lugar, não se tratava de uma instituição oficial, com um estatuto estabelecendo como ele deveria operar; na verdade, o grupo foi concebido numa reação contra a formalidade de entidades do tipo das Nações Unidas.

O programa foi estabelecido por uma presidência rotativa entre os membros. Bill Clinton presidiu o G-7 em 1997, quando então achou que convidar a Rússia para ingressar no grupo incitaria Moscou a assumir um papel construtivo junto com seus vizinhos e o país se preocuparia menos com a expansão da OTAN para a Europa Oriental. Apesar da oposição de muitos do grupo, o ex-vice secretário de Estado Strobe Talbott relembrou mais tarde que Clinton lhe disse que era um simples acordo.

“Nós os colocamos no G-7 e eles saem do Báltico. Se eles entrarem para o clube dos grandes, terão menos razões para atacar os pequenos”, Talbot escreveu em seu livro de memórias.

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O acordo funcionou no curto prazo: Clinton conseguiu apoio de Mikhail Gorbachev durante a guerra do Kosovo, usou a influência russa sobre a Sérvia para pôr fim à crise. Mas depois que Putin assumiu o comando do Kremlin, a Rússia entrou cada vez mais em desacordo com seus parceiros do G-8. Mesmo depois de ser expulsa do grupo, ela não renunciou à Criméia e nem se desculpou por suas ações na Ucrânia. Muitas ações flagrantemente agressivas foram levadas a cabo por Moscou, incluindo uma tentativa para influenciar a eleição nos Estados Unidos em 2016, depois de ser afastado do G-7.

Os que criticam a sugestão de Trump de convidar novamente a Rússia para o grupo sublinham que por mais flexíveis que sejam os requisitos para a adesão, a Rússia não os preenche. Putin, de uma maneira ou outra, está no poder há quase duas décadas e poucos observadores acham que as eleições na Rússia são livres e imparciais. E embora a União Soviética tenha sido uma potência econômica importante, as finanças da Rússia moderna estão mais abaladas. Segundo o Banco Mundial, sua economia é a 12ª maior do mundo, ligeiramente à frente da Espanha e da Austrália.

Mas estes argumentos poderiam ter sido feitos em 1997. A Rússia de Yeltsin era um desastre econômico e uma democracia incipiente, no melhor dos casos.  E economia é um importante tópico de discussão dentro do G-7. Na década de 1980, quando o grupo estava no auge, seu PIB agregado era de quase 70% da economia global, mas ele caiu para menos de 50% segundo dados compilados pelo Council of Foreign Relations. Algumas das democracias mais economicamente fortes do mundo não estão incluídas na sua atual formação, caso do Brasil, Índia e Coreia do Sul, entre outras. Estes países, como também a China, país claramente não democrático, fazem parte do G-20, grupo maior e talvez mais relevante.

Pior ainda, o G-7 também não está politicamente alinhado.  Nos últimos dias Trump – um líder que defende o unilateralismo -, se lançou uma guerra verbal sobre comércio e outros assuntos com Justin Trudeau, do Canadá,  e Emmanuel Macron da França. O presidente francês, em particular, levantou a perspectiva de isolar os Estados Unidos dentro do grupo, ou mesmo reduzir o G-7 que poderia se tornar um Grupo dos Seis.

“O presidente americano pode não se importar de ficar isolado, mas nós também não nos importamos de formar um grupo de seis, se necessário, afirmou Macron na quinta-feira. / Tradução de Terezinha Martino

 

 

 

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