AFP / JIM WATSON
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Análise: Donald Trump é fruto de uma reação conservadora

Não deveria constituir uma surpresa para ninguém o fato de Donald Trump flertar com a Ku Klux Klan. Há anos, ele é o catalisador de grupos como o dos defensores da teoria da conspiração, dos que negam a nacionalidade americana a Obama, dos extremistas e dos racistas que estão furiosos pelo fato de o país ter eleito um negro à presidência. Eles impeliram persistentemente o Partido Republicano para a direita, contribuindo para a criação de um discurso nacional que agora permite que um candidato presidencial busque o apoio racista sem pagar o necessário preço político. 

Brent Staples / The New York Times , O Estado de S. Paulo

07 de março de 2016 | 05h00

Toda era de progresso racial gera uma reação racista. A que persiste na presidência de Barack Obama tem um tom que se assemelha de maneira considerável à reação que varreu o Sul dos Estados Unidos depois da Reconstrução. No período que se seguiu à Guerra Civil, ex-escravos receberam a garantia de direitos constitucionais e os negros americanos ocuparam cargos nos governos inter-raciais que chegaram ao poder na antiga Confederação. 

A visão de ex-escravos entusiasmados fazendo filas para votar e eleger seus representantes a cargos públicos foi uma aberração total para a população sulina que justificava a escravidão, e estava convencida de que os negros não poderiam estar aptos para governar porque, na realidade, não eram pessoas. E os primeiros historiadores do período abraçaram a concepção sulina segundo a qual os governos da Reconstrução estavam nas mãos de indivíduos corruptos e incompetentes. 

Mas, como escreveu o historiador Eric Foner, a Reconstrução estava condenada por dois acontecimentos: a decisão de Washington de não respeitar os direitos dos afro-americanos no Sul, e a ascensão da Ku Klux Klan e de outros grupos defensores da supremacia branca. Eles inauguraram “uma campanha de assassinatos, assaltos e incêndios criminosos que só pode ser descrita como terrorismo de raiz americana”. 

Os Estados do Sul posteriormente excluíram os cidadãos negros de suas constituições e criaram um sistema de apartheid cívico, implementado por uma justiça sumária. A ideia fixa nos Estados do Sul de negar aos afro-americanos o direito de votar foi uma reação direta à ascensão do poder político dos negros durante a Reconstrução. Reação semelhante ocorreu durante o movimento dos direitos civis nos tempos modernos. 

O discurso da era da Reconstrução ressurgiu depois que Obama foi eleito em 2008. Os defensores do Tea Party e outros reagiram ao extraordinário comparecimento dos eleitores negros declarando que a eleição havia sido fraudada. Desde então, os Estados em que foi maior o comparecimento dos negros aprovaram em geral leis que dificultaram a votação. 

Um estudo realizado em 2013 pela Universidade de Massachusetts, em Boston, concluiu que estas leis foram debatidas e aplicadas em um processo “altamente faccioso, estratégico e racista”. Depois de 2008, surgiram rapidamente grupos e milícias contrários ao governo. Pouco depois da eleição de Obama, o Southern Poverty Law Center, organização sem fins lucrativos que defende os direitos civis e monitora grupos extremistas, informou que o movimento de milícias contrárias ao governo ressurgira, alimentado em parte “pelo temor do negro na Casa Branca”. 

E não é preciso ir muito para buscar uma prova da violência semelhante à da era da Reconstrução, basta lembrar do jovem defensor da supremacia branca acusado de assassinar nove afro-americanos numa igreja em Charleston, Carolina do Sul, em meados do ano passado. Este é o contexto no qual Donald Trump abraçou o movimento pela supremacia branca durante uma entrevista pela televisão recusando-se a repudiar o apoio do nacionalista branco David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan. 

A liderança do Partido Republicano no Congresso não gostou deste comportamento e fez uma série de denúncias pró forma. O que os republicanos precisam compreender é o seguinte: o ódio racista é uma ameaça para o país como um todo e o principal candidato do seu partido está fazendo tudo o que pode para explorá-lo. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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