Doug Mills/NYT
Doug Mills/NYT

Análise: Donald Trump é mero espectador na crise do coronavírus

Presidente americano não consegue liderar os Estados Unidos em meio à epidemia e ao momento de maior caos de seu mandato

Peter Baker e Maggie Haberman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2020 | 13h11

WASHINGTON - Enquanto enfrenta a crise mais séria de seu mandato, o presidente Donald Trump tem sido assertivo ao falar em fechar fronteiras para estrangeiros, uma de suas políticas favoritas. Mas, nosEstados Unidos, à medida que o coronavírus se espalha de uma comunidade para outra, ele tem sido mais seguidor do que líder.

 

Enquanto ele se apresenta como o líder da nação, Trump se tornou um espectador, enquanto superintendentes de escolas, comissários esportivos, diretores de faculdades, governadores e empresários de todo o país decidem encerrar grande parte do cotidiano dos americanos sem a orientação clara do presidente.

Por semanas, Trump resistiu em dizer aos americanos para cancelar ou ficar longe de grandes reuniões, relutante até em cancelar seus próprios comícios de campanha, mesmo quando ele reconheceu de má vontade que provavelmente precisaria. 

Em vez disso, coube a Anthony Fauci, o cientista mais famoso do governo, dizer publicamente o que o presidente não faria, influenciando as ligas de basquete, hóquei, futebol e beisebol do país em apenas 24 horas a suspender os jogos e cancelar os torneios.

Prefeitos de cidades, executivos de hospitais e proprietários de fábricas não receberam mais orientações do presidente enquanto ele falava sobre o vírus no Salão Oval na quinta-feira além do que ele havia discursado no horário nobre na noite anterior. Além dos limites de viagem e lembretes de lavar as mãos, Trump deixou para outras pessoas definir o caminho no combate à pandemia e indicou que não estava com pressa de tomar outras medidas.

“Se eu precisar fazer alguma coisa, farei”, disse o presidente a repórteres na quinta-feira. "Tenho o direito de fazer muitas coisas que as pessoas nem sabem". Mas ele novamente enfatizou que a crise não foi tão ruim quanto muitos imaginam. "Comparado a outros lugares, estamos em ótima forma", disse ele, "e queremos manter assim".

Em contrapartida, Leo Varadkar, o primeiro ministro da Irlanda, sentado ao seu lado, disse que, na sexta-feira, seu país estava fechando todas as escolas e proibindo reuniões internas de mais de 100 pessoas e reuniões externas de mais de 500 - o tipo de medidas que alguns estados e cidades americanos estão tomando por conta própria, em vez de esperar pelo presidente.

Trump não hesitou em palpitar antes de se tornar presidente, atacando o presidente Barack Obama por não fazer o suficiente para deter o Ebola, por exemplo. Mas sua própria Casa Branca rachou: um grupo pensa que o governo precisa fazer mais, enquanto outros compartilham - e reforçam - a própria visão de Trump de que a mídia está exagerando e criando pânico em torno do coronavírus.

Depois de sentir-se cercado por inimigos por três anos, Trump e alguns de seus conselheiros veem tantas questões através das lentes da guerra política - assumindo que as críticas têm tudo a ver com ideologia - que ficou difícil ver o que é real e o que não é, segundo fontes próximas a Trump. Mesmo quando aliados, com os melhores interesses, discordam de Trump, acham difícil penetrar no que vêem como a bolha ao seu redor.

Thomas Bossert, um ex-consultor de segurança de Trump, tentou repetidamente nos últimos dias se aproximar do presidente ou do vice-presidente Mike Pence para alertá-los sobre quão terrível é realmente a pandemia de coronavírus, mas foi impedido por funcionários da Casa Branca, segundo duas pessoas que acompanharam os eventos. 

Ele tentou chamar a atenção do presidente - e do público - através de artigos de jornais, aparições na televisão e mensagens no Twitter, chamando de “uso inadequado de tempo e energia” medidas como a que anulou a proibição de viagens na Europa por Trump.

Bossert, que publicamente alertou que cerca de 500.000 americanos podem morrer por causa do coronavírus, negou na quinta-feira que tenha tentado ver Trump, mas não detalhou seus contatos com a Casa Branca. Algumas autoridades negaram que ele tenha feito grandes esforços para falar com Trump ou Pence.

Entre os conselheiros que compartilham a visão mais cética do presidente está seu genro, Jared Kushner, que considera o problema mais da “psicologia pública” do que da realidade da saúde, segundo pessoas que falaram com ele. 

Kushner se envolveu mais com a resposta nos últimos dias, segundo três consultores da Casa Branca. Uma pessoa próxima a Kushner disse que seus pontos de vista estavam sendo mal interpretados e que estava concentrado em tentar encontrar respostas para as medidas mais imediatas para mitigar a propagação do vírus.

Marc Short, chefe de gabinete de Pence, entrou em contato com Kushner na segunda-feira sobre a integração das equipes da Casa Branca que trabalham no assunto, já que a assessoria do vice-presidente está repleta de solicitações de mídia e a Casa Branca está mudando o chefe de gabinete. 

Um funcionário do governo disse na quinta-feira que Kushner, sua esposa, Ivanka Trump, e Hope Hicks, assessora presidencial que acabou de voltar à Casa Branca, vêm tentnado conversar com Trump para acalmar as águas em meio à agitação incerteza e medo.

Ivanka Trump, a filha mais velha do presidente, participou da confecção do discurso proferido por Trump, segundo três funcionários do governo. Mas o assunto rapidamente se tornou um contencioso internamente, segundo vários funcionários do governo. Os rascunhos do discurso foram escritos e reescritos, a partir das 17h, com Kushner sendo o responsável por escrever - deixando o responsável pelos discrusos de Trump, Stephen Miller, e todo o escritório de comunicações da Casa Branca, deixados de fora das discussões.

No início da noite, apenas duas horas antes de a câmera ser ligada, ainda não estava totalmente claro o que Trump iria dizer. Em uma reunião no gabinete presidencial, várias autoridades disseram ao presidente que o discurso era uma boa idéia, com uma exceção notável: o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, que disse que Trump deveria esperar pelo menos um dia ou dois de modo a fornecer aos funcionários da Casa Branca mais informações. 

O presidente chegou a dizer a seus assessores reunidos na sala para trazerem alguma solução ou ideia se discordassem da proibição de viagens da Europa, segundo uma pessoa com conhecimento direto dos eventos.

Os especialistas em saúde apoiaram ou foram neutros em relação a uma proibição proposta a alguns viajantes europeus, mesmo quando Mnuchin discordou, e assim o plano avançou, sem menções a medidas como o fechamento de escolas e a proibição de multidões.

Quando a câmera foi ligada, o presidente parecia desconfortável, lendo as palavras do teleprompter de uma maneira rígida, sem nenhuma conexão emocional com uma audiência de milhões de pessoas assustadas com o vírus e incertas sobre uma sociedade que se transforma rapidamente em torno delas.

Mesmo com o texto na tela, o presidente descaracterizou suas próprias políticas de uma maneira que exigiu que seu governo o corrigisse posteriormente. Autoridades do governo disseram que havia dois erros no texto do teleprompter.

Um deles foi um erro de Trump, que acrescentou a palavra "apenas" em uma frase que pretendia dizer que a proibição não se aplica ao comércio e aos fretes, uma linha que assustou os mercados.

Trump também se referiu à pandemia como um "vírus estrangeiro" que "não terá chance contra nós" como se fosse uma nação hostil a ser derrotada no campo de batalha. Mas enquanto ele falava sobre medidas para sustentar a economia, ele não discutiu os problemas como a disponibilização de kits de teste nem expressou entendimento das mudanças na vida cotidiana que afetam tantos americanos.

Alguns assessores próximos não consideraram os erros no discurso particularmente significativos. Na manhã de quinta-feira, ficou claro que o discurso não havia atenuado os mercados financeiros, que despencaram outros 10%, o pior dia desde a segunda-feira negra de 1987. Juntamente com as perdas das últimas semanas, os mercados já apagaram cerca de 85% dos ganhos de toda a presidência de Trump, ganhos que foram a base de seu argumento para a reeleição.

"A verdadeira liderança nessa crise terá que vir dos governadores, das autoridades de saúde pública e dos líderes institucionais", escreveu Rod Dreher no site do The American Conservative. "Vimos hoje à noite que, mesmo quando Trump está tentando se comportar melhor, ele simplesmente não tem muita idéia sobre a natureza da crise ou como ela pode ser melhor combatida."

Outros estavam mais dispostos a dar a Trump o benefício da dúvida. Rich Lowry, editor da National Review, que havia criticado duramente as "falhas de liderança" do presidente em lidar com o surto, viu algum progresso no discurso, mesmo quando expressou preocupação de que isso não duraria.

"O discurso representa uma melhoraa marcante e bem-vinda na retórica do presidente", escreveu ele, "mas isso não importa se ele sair e acabar com isso amanhã, e o veredicto final de sua resposta será apresentado com base nos resultados".

A conservadora página editorial do Wall Street Journal também chamou o discurso de "um passo em direção a mais realismo", mas acrescentou que Trump não estava suficientemente próximo do tamanho do problema.

Os republicanos próximos à Casa Branca culparam Jared Kushner. Uma pessoa próxima a Kushner descreveu as críticas como injustas, dizendo que ele estava apenas ajudando e que fica mais fácil culpá-lo quando as coisas são difíceis. De qualquer forma, uma proibição parcial de viagens à Europa foi uma jogada ousada que pode ter atrapalhado os mercados em vez de acalmá-los.

A Casa Branca insistiu que as ações do presidente tiveram o apoio de autoridades de saúde e que as comunidades locais devem tomar decisões com base em suas próprias condições. Assessores disseram que o discurso demonstrou aos americanos que Trump entende a situação e está determinado a reagir fortemente para proteger seu bem-estar.

Falando no programa "Today" da NBC, Pence concordou que era errado descartar o surto como uma onda. "Obviamente, houve alguma retórica irresponsável, mas o povo americano deveria saber que o presidente Trump não tem prioridade maior do que a saúde, a segurança e o bem-estar das pessoas deste país", disse ele, sem identificar quem era o responsável pela retórica irresponsável. .

Quanto ao apelo de Trump a Washington em seu discurso para "parar o partidarismo", durou apenas nove horas - algumas das quais ele estava dormindo. Na madrugada de quinta-feira, ele já havia twittado ou retuitado ataques ao senador Chuck Schumer, de Nova York, e à líder democrata, Nancy Pelosi.

 

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