Análise: Economia aguarda por necessárias mudanças

Setores econômicos mais relevantes da Argentina esperam que novo presidente empreenda reformas profundas

Peter Prengaman, Associated Press

22 de novembro de 2015 | 23h25

O agricultor argentino Marcelo Cervigni observa um enorme trator que planta sementes de soja em sua fazenda, enquanto olha no celular as fotos de algumas plantações de colza que foram arrasadas por uma tempestade de granizo, na noite anterior. Os danos ascendem a cerca de US$ 80 mil, um golpe considerável para o seu bolso, embora ele diga que é menor em relação aos tributos e às restrições à exportação impostos aos agricultores pela presidente que deixa o cargo, Cristina Kirchner.

Ele tem a esperança de que as proibições sejam levantadas pela chegada de um novo presidente à Casa Rosada. “Não é bom estar num setor quando os lucros estão cada vez mais próximos do zero”, comenta Cervigni em sua plantação nas proximidades de Capilla del Señor, um povoado localizado a cerca de 84 quilômetros a noroeste de Buenos Aires.

Para a economia da Argentina, de agricultores como Cervigni a executivos de bancos ou comerciantes, são muitas as coisas em jogo nas eleições presidenciais de ontem.

Cristina e seu falecido marido, Néstor Kirchner, que a antecedeu na presidência, aumentaram enormemente o papel do Estado na terceira maior economia da América Latina. Aumentaram os gastos sociais em programas de apoio aos pobres, foram criados novos impostos e regulamentações a fim de manter baixos os preços de alguns produtos da cesta básica, como o pão, ou a passagem de ônibus.

Hoje, uma economia acentuadamente protecionista padece de muitos males: uma inflação próxima dos 30%, um enorme setor informal que não permite ao governo arrecadar impostos e receitas fiscais, imprescindíveis nos dias atuais, e o estancamento do Produto Interno Bruto (PIB) que impossibilita a criação de empregos.

“Estamos falando de uma economia que não cresceu em quatro anos”, afirmou Federico Thomsen, economista em Buenos Aires. “Obviamente, está desgastada”.

Alguns setores, como o agrícola, esperam que o próximo presidente empreenda reformas fundamentais. Mas outros, como o têxtil, estão nervosos, temendo perder as proteções aduaneiras e outras restrições às importações que contribuíram para que o seu isolamento da concorrência externa.

O governo de Cristina restringiu as exportações de grãos, como milho e trigo, de ovos e leite, com o objetivo de manter baixos os preços. Contudo, os agricultores afirmam que a medida teve um efeito contrário: menos hectares destinados às culturas e, em seu lugar, a produção se concentrou na soja. Os preços do óleo de soja dispararam entre 2008 e 2013, mas reduziram-se drasticamente nos últimos anos.

O governo de Cristina Kirchner viu uma fonte de receitas na soja e criou um imposto de 35% sobre as exportações, tomando como base os preços mundiais. Nos últimos anos, os produtores enfurecidos entraram em greve e armazenaram milhões de toneladas na esperança de vendê-las quando os preços subirem ou quando haja menos impostos em vigor.

Durante a campanha, tanto Scioli quanto Macri prometeram desmontar os impostos sobre as exportações, reduzir as tarifas do milho e do trigo e baixar gradativamente o imposto sobre a soja. Ao que tudo indica, ambas as propostas baseiam-se na realidade de que o governo que entrar precisará desesperadamente de receitas. A campanha de Scioli calculou que há cerca de US$ 13 bilhões em safras armazenadas, à espera de serem postas à venda.

“Os últimos 12 anos têm sido terríveis”, disse Carlos Altieri, dono de uma fazenda de 113 hectares destinada ao cultivo de trigo, soja e à produção de leite, nos arredores de Capilla del Señor. “Seja quem for o vencedor, nossa situação será melhor que a atual”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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