Washington Post photo by Jabin Botsford
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Análise: Em campanha, Trump luta contra seus próprios fantasmas

A cada tiro frustrado, fica mais exposta a fragilidade de sua estratégia de campanha, e os coelhos da cartola vão minguando

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2020 | 09h08

Empacado nos principais palcos da disputa eleitoral, o presidente americano Donald Trump apela para artifícios nada convencionais para embaralhar o cenário político-eleitoral. Com a aprovação em declínio e atrás de seu adversário democrata na disputa pela presidência, o inquilino da Casa Branca alvitra até mudar a data da eleição. Trata-se de manobra de fundo antidemocrático que é contraditória para quem advoga abertamente a retomada da atividade econômica e para quem pressiona pelo retorno imediato à normalidade do sistema educacional de todo o país.

Além de esconder os dados produzidos pela força-tarefa da Casa Branca, o presidente americano vem criando escaramuças com a equipe de cientistas que o auxilia e negando a reaceleração da curva de infectados e de mortos pela covid-19. Somam-se a isso as propostas de alteração dos contornos dos distritos eleitorais em diversos estados americanos. A cada tiro frustrado, fica mais exposta a fragilidade de sua estratégia de campanha, e os coelhos da cartola vão minguando.

Em face do malabarismo eleitoral de Trump, o eleitorado republicano desconfia que a derrota, em novembro, tornou-se tão iminente quanto irreversível – conforme os dados disponíveis até o momento. Os candidatos do partido republicano ao Senado, nos principais estados do país, vão-se dissociando da campanha trumpista – uns de fininho, outros atirando.

O conjunto de artifícios empregado pelos novíssimos marqueteiros do candidato presidencial republicano já não consegue impulsionar sua campanha na Flórida, em Michigan, em Wisconsin e na Pensilvânia. Se confrontados os resultados alcançados com o esforço empreendido por sua máquina de marquetagem, o ganho por ora é considerado marginal.

O desespero bateu fundo na campanha do republicano. O incumbente não está conseguindo diminuir a diferença em estados que serão decisivos, a despeito de sua indústria de “fake news” estar operando em grande escala e intensidade. O gasto de sua campanha em mídias digitais mais que dobrou em alguns estados nas últimas semanas. Apesar disso, Trump segue perdendo tração em estados-chave – e, sobretudo, naqueles que consagraram sua vitória no colégio eleitoral em 2016.

Joe Biden não precisa fazer muito. Basta não cometer erros graves e deixar Trump ser estrangulado pela própria máquina de inventar mentiras. O presidente encontra dificuldade em sustentar discurso coerente e crível. A falta, em Trump, de altivez e de capacidade de reconhecer a importância e o legado de figura histórica do quilate de John Lewis faz muitos americanos acreditarem de que o incumbente não reúne as condições para se apresentar como o presidente de todos os americanos.

Essa é a avaliação de líderes republicanos históricos e que já enxergam os custos com que o partido terá de arcar no pós-Trump. O slogan trumpista “Keep America Great” se confunde com uma miragem enfadonha. O desafio não é apenas econômico, é também o de manter a coesão social e a unidade do país. 

Para azar do presidente, a dinâmica da eleição modificou-se. Não é mais disputa eleitoral entre Trump e Biden, mas entre trumpistas e antitrumpistas. A derrota do atual presidente nas urnas passou a ser vista por parcela expressiva do eleitorado como necessária para a sobrevivência nacional – inclusive por “falcões” gabaritados do partido republicano que almejam devolver o partido a seu eixo de equilíbrio.

O último coelho na cartola de Trump saiu natimorto. Adiar as eleições não será opção viável. A manobra pegou mal. A proposta de empurrar a data da eleição presidencial não respondeu, obviamente, ao desejo de zelar pela saúde da população em meio à pandemia. Explica-se antes pela busca de alguma “bala de prata” capaz de salvar sua campanha do desastre. O objetivo foi pura e simplesmente oportunista. Trump pretende ganhar tempo na esperança de o anúncio de vacina para a COVID-19 poder ser feito em momento favorável à sua reeleição.

Os EUA nunca adiaram qualquer eleição presidencial. Durante a guerra civil americana, o presidente Abraham Lincoln chegou a cogitar o adiamento; porém, acabou recuando. Ademais, nem a gripe espanhola, nem a Grande Depressão, nem as duas guerras mundiais serviram de pretexto para adiamento da eleição. Desde a ratificação da Constituição americana, em 1788, e a realização da primeira eleição presidencial, em 1792, os Estados Unidos nunca se submeteram a ato tão antidemocrático quanto a manobra pretendida pelo atual presidente. O diversionismo populista já lhe impõe duro revés eleitoral. O candidato e sua campanha começam a lutar contra os fantasmas e inverdades por eles criados.

*Hussein Kalout é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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