Rodrigo Buendia / AFP
Rodrigo Buendia / AFP

Análise: Em Guayaquil, presidente Lenín Moreno sente que tem mais força

Presidente do Equador saiu temporariamente da capital Quito com todo o comando das Forças Armadas ao seu lado, além da equipe política, e não mostra sinais de recuo em meio a crise

Franklin Ramírez, analista político da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais do Equador (Flacso)

09 de outubro de 2019 | 06h00

Os indígenas formam o movimento social mais importante do Equador desde a década de 90. Nos últimos anos, têm tido uma relação conturbada com o governo de Lenín Moreno. Desde que se distanciou do ex-mandatário Rafael Correa, o presidente fez alterações sociais e implementou uma reforma trabalhista impopular. O grupo quebrou o silêncio desses dois últimos anos e decidiu se rebelar. 

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O ajuste dos preços dos combustíveis claramente afeta os movimentos populares e os interesses indígenas. Vale ressaltar que não foram os indígenas que iniciaram a mobilização, que já estava em andamento com motoristas de ônibus, taxistas e caminhoneiros, além dos sindicatos e movimentos sociais de esquerda, como as feministas. Mas, quando o movimento indígena aderiu, com sua capacidade de mobilização, tornou-se um ator fundamental. 

O cenário de repressão aos protestos, com tamanha força militar e um decreto de estado de exceção, além de feridos e mortos, é inédito no Equador. Há um dispositivo militar, policial e judicial muito forte contra a mobilização popular. 

Até agora, o governo não mostrou sinais de que cederá às exigências do movimento indígena, que incluem o fim do estado de exceção e do pacote econômico, além das renúncias dos ministros do Interior e da Defesa. Nesse meio, há o correísmo, que insiste há meses em pedir a queda de Moreno e a antecipação das eleições. Correa, porém, ainda está sozinho com essa bandeira. 

A questão principal não é o risco de renúncia de Moreno, já que a ida a Guayaquil mostra que ele não está disposto a sair. A pergunta fundamental é se haverá algum sinal do governo de voltar atrás no pacote econômico (que elevou o preço da gasolina em até 123%). Isso mudaria o cenário por completo. E é possível que a classe empresarial, até então aliada de Moreno, prefira mais sua renúncia do que um recuo nas medidas econômicas. 

É a primeira vez na democracia equatoriana que um presidente decide tomar uma medida de exceção como essa, de transferir o poder da capital. Certamente, é um sinal de temor à mobilização, que é menos forte em Guayaquil. Mas, ao mesmo tempo, é ali que o governo tem seus aliados mais fortes: os grupos econômicos e empresariais. A mudança pode ser considerada um sinal de fragilidade, mas foi feita para a cidade mais importante do país em termos econômicos.

Em Guayaquil, Moreno tem uma sensação maior de força. Ele não saiu de Quito somente com a equipe política, como normalmente ocorre no Equador nesses casos, mas com todo o comando das Forças Armadas ao seu lado. Isso é uma demonstração de força entre tantos sinais de fraqueza. 

O Equador já vivenciou um contexto similar de ocupação da Assembleia Nacional, em 2000, que levou à queda do ex-presidente Jamil Mahuad. Desta vez, é evidente que os policiais e os militares deixaram os manifestantes entrarem. Parece que isso faz parte da estratégia do governo de desprestigiar a mobilização e requalificá-la como “golpista”. O governo equatoriano alega enfrentar uma tentativa de golpe de Estado. Um sinal de que este é o argumento central de Moreno é a acusação de que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, está envolvido no esforço para derrubá-lo.

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