Frederik Von Erichsen/EFE
Frederik Von Erichsen/EFE

Análise: Embalagem liberal contém chanceler conservadora

Merkel recebeu mais de 1 milhão de refugiados, abandonou a energia nuclear, conclamou Trump a respeitar os direitos humanos e votou contra o casamento gay

Rick Noak / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2017 | 05h00

A votação em Berlim para reconhecer o direito de casais do mesmo sexo se casarem foi uma muito esperada vitória dos liberais alemães, mas uma derrota para a mulher que parecia ter surgido como um dos ícones mais populares do liberalismo: a chancelar Angela Merkel.

Ela recebeu mais de 1 milhão de refugiados, abandonou a energia nuclear em razão de temores de segurança e conclamou o presidente Donald Trump a respeitar direitos humanos. Nesta sexta-feira, votou contra o casamento de pessoas do mesmo sexo, apesar de ter aplainado o terreno para seu reconhecimento alguns dias antes. 

A linha partidária contra a igualdade de casamento no partido União Democrata-Cristã (CDU) há muito im    pediu que a lei fosse aprovada. Mas a chanceler abriu caminho para a aprovação no Parlamento ao permitir que os legisladores optassem segundo suas convicções pessoais após ser pressionada para uma votação pelo Partido Social-Democrata (PSD).

O voto final de Merkel contra a igualdade no casamento pode ter vindo como surpresa para observadores internacionais que a consideram um ícone liberal cada vez mais influente ou até mesmo “líder do mundo”. Em casa, na Alemanha, nem todos ficaram surpresos.

Seu voto incorpora algumas das forças de oposição que estão pressionando Merkel, diz Robert Beachy, o autor de Gay Berlim: Birthplace of a Modern Identity. Ela é ao mesmo tempo a expoente de uma visão ocidental liberal e a líder de um país, e de um partido, mais ligado a valores conservadores.

“Ocorrem-me que Merkel está se sentido cada vez mais exposta porque ela certamente quer se alinhar com uma cultura e tradição progressista da União Europeia, e ela de certa forma é a líder disso agora”, avalia Beachy. “Isso tornou a ausência do casamento de pessoas do mesmo sexo na Alemanha muito mais chamativo.”

Filha de um pastor protestante, Merkel há muito se alinhou com a direita de seu partido na questão. Em 2015, a chanceler disse: “Para mim, pessoalmente, casamento é um homem e uma mulher vivendo juntos”. Ela repetiu esses comentários, quase palavra por palavra, nesta sexta-feira. O que mudou de lá para cá, porém, é a posição de Merkel sobre casais do mesmo sexo adotarem filhos, que agora ela parece defender. 

Sua ambiguidade sobre a questão se encaixa num padrão comum que moldou boa parte de seus 12 anos como chanceler alemã: Merkel dificilmente define seu papel num sentido ideológico. Como chanceler, repetidamente virou as costas para si e para seu próprio partido quando lhe pareceu necessário.

Sobre outros temas, seu partido e apoiadores a acompanharam deliberadamente. Já o casamento gay tende a ser um desafio mais difícil para a chanceler, já que muitos membros do seu partido continuam decididamente contrários a ele apesar de a maioria dos alemães apoiar a igualdade.

Desde 2001, a Alemanha permitiu que casais do mesmo sexo registrassem parcerias civis, que concede alguns, mas não todos, benefícios que cabem aos casais hétero. Em outros países europeus, como França e Espanha, permaneceu uma linha vermelha para muitos conservadores. Essa linha vermelha teria sido desafiada mais cedo ou mais tarde. Todos os grandes partidos com os quais a CDU de Merkel poderá formar uma coalizão depois das eleições gerais de setembro são a favor desse tipo de casamento.

Ao permitir a aprovação da lei antes das eleições, Merkel apelou para a maioria dos eleitores mas pode ter evitado a ira de boa parte de seu partido – seguindo a velha racionalidade de Merkel de tentar fazer o mínimo de inimigos. “Espero que com o voto de hoje persista esse respeito mútuo entre as posições individuais, mas também que um pouco de paz social e unidade possam ser criadas”, disse Merkel depois da votação de sexta-feira.

Ela provavelmente sabia que sua oposição pessoal teria importância para seu partido, mas não faria uma diferença total, já que o parlamento alemão votou por 293 a 226 a favor de modificar o código civil do país. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

 

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