Eric Thayer/The New York Times
Eric Thayer/The New York Times

Análise: Encruzilhada conservadora

Vitória de Trump nas primárias republicanas de 2016 representou uma ruptura inesperada com o establishment, quando outros candidatos considerados mais aptos perderam a nomeação

Lucas Leite*, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 07h48

O Partido Republicano encontra-se em uma encruzilhada, que corre à margem da reeleição de Donald Trump. A vitória dele nas primárias de 2016 representou uma ruptura inesperada com o establishment, quando outros candidatos considerados mais aptos ou próximos da política tradicional perderam a nomeação para a eleição em questão.

Em um primeiro momento, é interessante perceber como os republicanos preferiram manter a indicação de Trump, mesmo quando podiam ter apontado outro candidato. Sem experiência política, pouco afeito ao decoro e de conexão partidária fluida, questionou-se muito se seria uma seleção arriscada demais. A ocupação da Casa Branca por quatro anos parece responder à pergunta, mas omite um cenário mais amplo, especialmente se Joe Biden ganhar por ampla margem no colégio eleitoral.

Um possível revés em 2020 representaria a perda do controle do Executivo pelos republicanos e a necessidade de repensar a estratégia para as eleições futuras. O partido não é necessariamente coeso, tendo acompanhado a ascensão de grupos como o movimento Tea Party e os neoconservadores. Ainda assim, é possível notar uma presença maior de questões morais e religiosas no discurso político do partido. Isso pode ser percebido pela defesa cada vez mais intransigente de temas como, por exemplo, a proibição do aborto, a negação dos direitos de igualdade à população LGBT e a posição contrária aos grandes acordos ambientais.

Parte dessa construção discursiva se deve justamente à necessidade de garantir o voto do eleitorado branco, masculino, rural e conservador dos EUA. É esse perfil, no geral, que tem permanecido próximo aos republicanos. Por isso, se o partido consegue expandir seu eleitorado para grupos distintos, tem uma chance maior de vencer. Essa é, ao mesmo tempo, a fragilidade do Partido Republicano.

A manutenção deste eleitorado ainda garante a maioria dos votos em diversos Estados, principalmente no Meio-Oeste e no Sul. Mas, no longo prazo, a adoção de uma agenda mais conservadora pode afastá-lo de grupos que penderão a balança para uma agenda que os acolha, como negros e imigrantes - mesmo que existam possíveis demarcações internas a cada um, que serão intensificadas com o passar do tempo.

O Partido Republicano precisa se decidir se o seu sucesso dependerá de figuras isoladas como Trump - um demagogo que agrega a partir da diferença e do resgate do nativismo, do negacionismo ambiental e sanitário e da incapacidade de condenar supremacistas brancos. Ou se será capaz de renovar seus quadros com indivíduos que construam consensos de forma moderada.

*PROFESSOR DA FAAP, É DOUTOR PELO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS SAN TIAGO DANTAS (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). FOI PESQUISADOR-VISITANTE NA GEORGETOWN UNIVERSITY

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