Russell Cheyne / Reuters
Russell Cheyne / Reuters

Análise: Erro do Brexit será legado irreversível

O Reino Unido, famoso pela prudência, decoro e pontualidade, agora se parece com uma república das bananas

Fareed Zakaria, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2019 | 05h00

Um dos grandes pontos fortes da democracia é que políticas ruins são em geral revogadas. Isso é um consolo quando olhamos para a enxurrada de programas demagógicos sendo promulgados enquanto a onda populista percorre o mundo ocidental. Quando um novo governo é eleito, as coisas podem ser desfeitas. Com exceção do Brexit, que, se for levado adiante, poderá ser o legado mais profundo desta década.

O Reino Unido, famoso pela prudência, decoro e pontualidade, repentinamente se parece com uma república das bananas ao tomar decisões imprudentes, deturpar a realidade e agora querendo mudar o próprio prazo autoimposto. Mas se ela realmente sair da União Europeia, será uma má notícia para o Reino Unido, para a União Europeia  e para o Ocidente.

Como Martin Sandbu escreve em The Political Quarterly, o Brexit sempre foi “uma solução em busca de um problema”. Para mim, a melhor prova disso é que os eurocéticos do Reino Unido geralmente querem deixar a União Europeia porque a encaram como uma jamanta estatizante. Em praticamente todos os outros países-membros, os eurocéticos não gostam da União Europeia porque a veem como um rolo compressor do “livre mercado”. Então, ou todos esses outros países são retrógrados, ou os conservadores britânicos ficaram malucos.

Quando perguntei a Anne Applebaum, minha colega do Washington Post, para onde os historiadores olhariam ao tentar entender o tortuoso caminho para o Brexit, ela sugeriu que tudo se concentra em torno do Partido Conservador.

Os conservadores provavelmente poderiam alegar ser o partido político mais importante dos anos 1900, governando o Reino Unido durante a maior parte do século, produzindo líderes como Winston Churchill, Margaret Thatcher e outros estadistas históricos do Ocidente.

Mas depois da Guerra Fria, quando os partidos de esquerda abandonaram as ideias socialistas e se mudaram para o centro, a direita enfrentou uma crise de identidade. Precisava encontrar o tipo de clareza e propósito que o anticomunismo e a liberdade haviam proporcionado. 

Nos Estados Unidos, isso mobilizou os republicanos para enfatizar questões sociais e culturais como o aborto, os direitos dos homossexuais e a imigração, que eles associaram a uma fúria quase religiosa contra os liberais.

No Reino Unido, os conservadores viram-se no mesmo meio indefinido, que os primeiros-ministros Tony Blair e David Cameron habitavam. Então, como observou Applebaum, eles se tornaram radicais – na Europa. É claro que sempre houve os eurocéticos, mas eles constituíam uma minoria pequena e excêntrica dentro do partido. No meio do período em que Cameron foi primeiro-ministro, eles conseguiram tomar o partido como refém e forçaram o Reino Unido a caminhar na prancha rumo ao vazio.

Estamos todos cansados com o drama, mas tenha em mente: o Brexit será um desastre. Como observa Sandbu, a economia do Reino Unido é competitiva e produtiva apenas em manufaturas e serviços de alto valor, ambos dependentes de um mercado profundamente integrado com a Europa. Mesmo que o Reino Unido possa e venha a se ajustar, o Brexit provavelmente significará um caminho de crescimento mais lento e menos inovação para o país e seu povo.

As consequências em política externa do Brexit estão sendo menos discutidas, mas podem revelar-se as mais consequentes. Se o Brexit realmente ocorrer, dentro de alguns anos, a Escócia e a Irlanda do Norte provavelmente irão afrouxar seus laços com o Reino Unido, a fim de manter sua associação com a Europa. O Reino Unido será então reduzida a apenas a Inglaterra e o minúsculo País de Gales, um pequeno país ao largo da costa da Europa, que na realidade não se encaixa em nenhum dos três blocos econômicos do século XXI – América do Norte, Europa e China. Londres, a cidade que moldou os negócios globais por 250 anos, vai se tornar a Dubai do Ocidente, um lugar onde muito dinheiro circula, mas sem grande importância geopolítica ou influência.

A Europa também perderá muito com o Brexit. O Reino Unido é uma economia grande e vibrante. Mas, mais importante, tem sido uma voz crucial na comunidade para os mercados livres, abertura, eficiência e uma política externa voltada para o exterior. O Reino Unido tem sido um dos poucos países europeus que mantiveram e implementaram um exército poderoso, muitas vezes para fins globais mais amplos.

À medida que os países não ocidentais, como a China, crescem em importância, a questão central das relações internacionais é: pode o sistema internacional construído pelo Ocidente – que produziu paz e prosperidade por 75 anos – perdurar? Ou a ascensão da China e da Índia e o ressurgimento da Rússia a corroerão e nos farão voltar ao que Robert Kagan chama de “a selva” da vida internacional – marcada por nacionalismo, protecionismo e guerra?

A ordem mundial, tal como a conhecemos, foi constituída ao longo de dois séculos, durante os domínios de duas superpotências liberais, a Inglaterra e depois os Estados Unidos. O Brexit marcará o fim do papel do Reino Unido como uma grande potência, e eu me pergunto se isso também marcará o dia em que o Ocidente – como entidade política e estratégica – começou a desmoronar. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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