AFP
AFP

Análise: Esperanças da Primavera Árabe são revividas

No Sudão, na Argélia e na Líbia as esperanças inspiradas pelas revoltas da Primavera Árabe, em 2011, repercutem novamente

David D. Kirkpatrick / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2019 | 05h00

No Sudão, dezenas de milhares de manifestantes realizaram protestos pedindo saída do ditador Omar al-Bashir, há três décadas no poder. Na Argélia milhões de pessoas foram às ruas exigindo a renúncia do seu líder octogenário, que se demitiu na semana passada. E, na Líbia, um general idoso batalha para se estabelecer como o novo homem forte, prometendo acabar com o caos que se instalou quando os líbios derrubaram seu ditador, há oito anos.

As esperanças inspiradas pelas revoltas da Primavera Árabe em 2011 esvaneceram há muito tempo. Mas agora em todo o Norte da África elas vêm repercutindo novamente, derrubando governos autocráticos e trazendo novas perguntas sobre o futuro. Veteranos das lutas da Primavera Árabe afirmam que as cenas vistas agora são flashbacks de episódios de uma história comum. As massas que clamaram pela saída do presidente sudanês lembram as multidões reunidas na Praça Tahrir no Cairo ou na frente do Ministério do Interior da Tunísia oito anos atrás.

Mas os retrocessos e a desilusão também são familiares. Os generais argelinos podem ter forçado o fim de o governo do presidente Abdelaziz Bouteflika, que durou 20 anos, para aplacar a multidão, mas os argelinos agora se defrontam com a dificuldade de desafiar o sistema arraigado de compadrios e corrupção que reinou por trás da gestão dele. E a tentativa de um general para pôr fim ao caos na Líbia instituindo uma nova autocracia, lembra o infeliz resultado das revoltas que ocorreram em Egito, Bahrein, Síria e Iêmen.

Enquanto governos autoritários por toda a região buscaram enfatizar o conceito de que revoluções populares causam apenas confusão, os jovens argelinos e sudaneses evidentemente aprenderam uma lição diferente: de que protestos não violentos congregando um grande número de pessoas podem derrubar um ditador por mais arraigado que esteja no poder.

“É uma lição da história de 2011 e de todas as revoluções em todas as épocas”, afirmou o intelectual e ativista sudanês Amjed Farid, em uma entrevista por telefone.

Os novos levantes no Norte da África também enfatizam a noção de que os problemas fundamentais que levaram às revoltas da Primavera Árabe continuam a se deteriorar, incluindo um grande aumento de jovens descontentes, economias fechadas e corruptas incapazes de absorver o grande número de desempregados e governos autoritários que não prestam contas à sociedade.

Como o presidente Donald Trump deverá receber o presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi na Casa Branca na terça-feira, alguns estudiosos afirmam que as novas rebeliões são um alerta para os riscos de manter vínculos muito estreitos com aliados autocráticos.

Al-Sisi, de 64 anos, assumiu o poder num golpe militar que acabou com o experimento democrático do Egito em 2013. Agora ele vem a Washington em busca de pelo menos uma aprovação tácita antes de um referendo para mudar a Constituição egípcia de maneira que ele possa se manter no poder até 2034 – na verdade, como presidente perpétuo.

Ativistas no Sudão e Argélia – e partidários dos dois lados da batalha na Líbia – todos afirmam estar lutando para não ter a mesma sorte dos Estados árabes que se insurgiram em 2011. Todos esses países, salvo a Tunísia, mergulharam no caos ou se tornaram Estados autoritários. Agora os organizadores no Sudão e na Argélia afirmam que os líderes militares nos seus países vêm adotando as táticas dos seus homólogos no Egito.

No Sudão, as forças de segurança mataram dezenas de manifestantes, talvez mais, desde o início em dezembro. Mas à medida que enormes multidões se reuniam na frente do palácio presidencial nos últimos dias, os soldados começaram a protegê-las contra ataques da polícia ou das milícias leais a al-Bashir.

Segundo Farid, a tática adotada pelos militares traz à mente a experiência do Egito, onde os generais que forçaram a saída do presidente Hosni Mubarak ficaram populares, considerados guardiães de uma revolução – mas no final subjugaram a revolução. “É o risco que estamos enfrentando”, disse, mas acrescentou que a história de revoluções e golpes no Sudão deixaram os partidos de oposição mais bem preparados para negociar com o Exército.

Na Argélia, o governo interino nomeado por Bouteflika é formado por aliados do ex-presidente, incluindo um premiê acusado de fraudar as eleições. Assim, em vez de se alegrarem com a deposição do seu autocrata, os manifestantes argelinos continuam a exigir um fim mais radical do que chamam desdenhosamente de “sistema”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO



O presidente do SudãoOmar al-Bashir, foi destituído do poder e preso nesta quinta-feira, 11, pelo Exército do país após um levante popular, e substituído por um "conselho militar de transição" que dirigira o país por dois anos. "Eu anuncio, como ministro da Defesa, a queda do regime e a detenção em um lugar seguro de seu chefe", afirmou o ministro de Defesa, Awad Mohamed Ahmed, à emissora estatal, acrescentando que a Constituição sudanesa foi suspensa. 

Al-Bashir, de 75 anos, assumiu o poder por meio de um golpe em 1989 apoiado pelos islamistas e, desde então, governou o país com mão de ferro. Ele foi expulso depois que a força militar não conseguiu encerrar quatro meses de protestos em todo o país que pediam sua saída. "O regime caiu, o regime caiu!", comemoraram os sudaneses reunidos no centro da capital Cartum.

"Nós o substituímos por um conselho militar provisório por dois anos e suspendemos a Constituição de 2005 no Sudão", disse Ahmed, ao ler um comunicado. "Anunciamos um estado de emergência em todo o país por três meses e ordenamos o fechamento das fronteiras e do espaço aéreo do país até que um novo anúncio seja feito." Os militares ainda decidiram impor um toque de recolher noturno no território.

Ahmed informou que o conselho militar também declarou um cessar-fogo nacional, que inclui as regiões devastadas pela guerra de Darfur, Nilo Azul e Kordofan do Sul, onde o governo de Al-Bashir lutava há anos contra rebeldes de minorias étnicas.

Durante toda a manhã, uma multidão de sudaneses permaneceu no centro da capital, antecipando o anúncio da destituição do presidente. Contudo, os líderes dos protestos rejeitaram a ação dos militares e prometeram continuar com as manifestações em frente à sede das Forças Armadas em Cartum e em todo o país. "O regime realizou um golpe de Estado militar apresentando os mesmos rostos (...) contra os quais o nosso povo se levantou", disse a Aliança pela Liberdade e a Mudança em um comunicado.Em pleno marasmo econômico, o Sudão é palco desde dezembro de manifestações motivadas pela decisão do governo de triplicar o preço do pão. A contestação logo se transformou em um movimento que pedia a queda de Al-Bashir, alvo há anos de ações judiciais internacionais. Desde sábado, milhares de manifestantes exigiam, em frente ao quartel-general do Exército, o apoio dos militares.

Pouco antes do anúncio do ministro da Defesa, o serviço de inteligência do Sudão (NISS) havia divulgado a libertação de todos os presos políticos no país, segundo a agência oficial Suna. No total, 49 pessoas morrem em razão da violência ligada às manifestações, segundo responsáveis locais. A ONG Human Rights Watch divulgou recentemente um balanço de 51 mortos, incluindo crianças. 

No poder há 30 anos, Al-Bashir é acusado de crimes de guerra e genocídio pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede em Haia, por suas ações em Darfur, oeste do país. O conflito na região deixou mais de 300 mil mortos e 2,5 milhões de deslocados, segundo a ONU/ AFP, Reuters e AP

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.