Yuri Gripas/Reuters
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Análise: Estabilidade geral permitirá sobrevivência de Trump

Qualquer estratégia que os democratas adotem ou qualquer defesa apresentada são menos importantes para o destino de Trump do que as respostas para duas perguntas: a economia vai bem? O mundo está desmoronando?

Ross Douthat / The New York Times , O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 21h18

Aqui vai uma provocação que pode ser verdadeira: até agora, o momento mais importante da batalha do impeachment não ocorreu nos corredores do Capitólio, nem mesmo nos bares e cafés da república da Ucrânia, mas em Ancara, em 17 de outubro, quando o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, se reuniu com Mike Pence e concordou com um cessar-fogo no norte da Síria, limitando assim o escopo do fiasco moral e estratégico ocasionado pela traição de Donald Trump aos curdos.

Não estou sugerindo que o público americano, com toda a sua sabedoria, esteja mais preocupado com os valentes curdos ou as linhas de controle político na Síria do que com os abusos do poder presidencial. Mas estou sugerindo que parte do país se baseia em especulações gerais, e não nos detalhes específicos da má conduta presidencial, para determinar quando apoiar algo como um impeachment.

Nesse caso, qualquer estratégia que os democratas do Congresso adotem ou qualquer defesa apresentada por Jim Jordan ou Lindsey Graham são menos importantes para o destino de Trump do que as respostas para duas perguntas básicas: a economia vai bem? O mundo está desmoronando?

Essa suposição se baseia em um registro histórico reconhecidamente fraco. Temos exatamente dois estudos de caso de impeachment na era moderna, Bill Clinton e Richard Nixon. Cada um envolveu um conjunto de fatos muito diferente e se desenrolou de maneira muito diferente.

As diferenças são importantes para as interpretações partidárias: os liberais podem argumentar que Clinton sobreviveu e Nixon sucumbiu ao processo porque os crimes de Clinton foram coisas menores e Nixon se enquadrou na ordem dos “crimes graves”. Já os conservadores podem argumentar que Clinton sobreviveu e Nixon sucumbiu porque os republicanos eram mais honrados em 1974 e os democratas, mais partidários em 1998.

Mas a explicação mais simples é que Nixon não sobreviveu porque seu segundo mandato atravessava uma série de choques econômicos – resumidos no Twitter pelo teórico político Jacob Levy como “uma crise de petróleo, uma crise no mercado de ações, estagflação (aumento da taxa de desemprego combinado com inflação) e recessão” – ao passo que o segundo mandato de Clinton coincidiu com o mais recente pico do poder, orgulho e otimismo americanos.

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Segundo essa teoria, em um debate sobre impeachment, nem a natureza dos crimes nem a condição dos partidos políticos importa tanto quanto a percepção de o presidente estar governando em estabilidade ou crise, em bons tempos ou possível ruína.

Se essa teoria um tanto reducionista for verdadeira – e claramente é pelo menos um pouco verdadeira –, não devemos nos surpreender com a sobrevivência de Trump e não devemos presumir que ela possa ser explicada apenas pela polarização ou hiperpartidarização, pela Fox News ou fake news, nem mesmo pela progressiva distensão do é-assim-que-você-derruba-o-Trump que venho criticando.

É claro que importa que o partido de Trump seja covarde e degradado. É claro que importa que os democratas tenham chegado a um extremo ideológico. Mas talvez o mais importante para a estabilidade – a surpreendente estabilidade – dos índices de aprovação de Trump seja o fato de que ele está presidindo durante um período de estabilidade geral, em casa e no exterior. Uma estabilidade que teria de desmoronar para que a supermaioria que derrubou Nixon decidisse derrubá-lo.

A ideia de que a era Trump é estável provavelmente parece pouco convincente para as pessoas que acompanham obsessivamente o carnaval de Washington; a ideia de que é mais estável do que nos últimos anos de Obama pode soar como uma piada. Mas uma das razões pelas quais Trump conseguiu ser eleito foi que os últimos anos do segundo mandato de Barack Obama pareceram caóticos e perigosos em várias frentes – com a ascensão do Estado Islâmico, a tomada russa da Crimeia e a quase guerra ucraniana, um pequeno aumento na criminalidade, uma série de ataques terroristas no país e uma versão da crise migratória que se repetiu sob Trump.

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Se você não prestar atenção ao caos na capital do país, como muitos americanos não prestam, a era Trump tem sido, sem dúvida, mais tranquila que o período 2014-16. A crise dos migrantes e o terrorismo nacionalista branco pioraram, mas o aumento da criminalidade do fim da era Obama parece ter arrefecido, os campi e as cidades estão relativamente calmos, a agressividade da Rússia deu lugar ao impasse, a derrota do Estado Islâmico foi praticamente concluída e o terrorismo islâmico se tornou mais esporádico do que no período que nos trouxe Charlie Hebdo, San Bernardino e muito mais. Enquanto isso, a economia cresce constantemente, deixando a maioria dos americanos em sua melhor posição financeira desde os dias em que Clinton sobreviveu ao impeachment.

Esse ambiente criou eleitorados que recebem menos atenção do que o tipo de eleitor "estou-com-o-presidente-mesmo-que-ele-mate-alguém-na-Quinta-Avenida", mas que provavelmente têm mais importância para o desenrolar do impeachment. São eleitores que não gostam de Trump, mas lhe dão um crédito relutante pela economia sólida e pela ausência de novas guerras estrangeiras; eleitores que não apoiam suas políticas, mas não compartilham da repulsa liberal ilustrada a seu estilo; eleitores cujo apoio relutante depende do caos trumpiano que parece confinado a Washington.

É possível convencer esses eleitores mornos a se voltarem contra o presidente; você pode ver o começo dessa mudança nos dados de pesquisa quando seu partido adota políticas impopulares (o esforço de revogação do Obamacare), ou quando seu caos pessoal parece produzir um verdadeiro colapso político (a paralisação do governo), ou quando seu fanatismo parece ligado a algum horror do mundo real (como em Charlottesville).

Mas quando retorna a sensação de estabilidade, quando não há uma cascata de desastres econômicos, catástrofes de política externa ou conflitos civis do fim da década de 60, esses eleitores voltam a nutrir sentimentos contraditórios, apoio morno e uma aversão equilibrada pelo ceticismo quanto à queda de Trump via impeachment e não via eleição em 2020.

É por isso que, voltando à hipótese inicial, foi importante que o debate em torno do impeachment tenha começado no mesmo momento em que Trump tropeçava seriamente na política externa com a Turquia e os curdos; isso deu a alguns desses eleitores (e aos senadores republicanos que os representam) a sensação de que talvez desta vez tudo desmoronasse, de que a incompetência de Trump explodiria o Oriente Médio, ao mesmo tempo em que seus escândalos se multiplicavam.

Dessa maneira, o padrão nas pesquisas desde então – a queda no seu índice de aprovação dando lugar a um pequeno aumento, o apoio ao impeachment chegando ao ápice e depois diminuindo um pouco – pode não refletir algum fracasso dramático dos democratas que o processam ou algum sucesso dramático daqueles que o defendem.

Em vez disso, talvez reflita apenas o fato de que a situação na Síria parece ter se estabilizado por enquanto, de que a economia vai bem e de que há eleitores que apoiarão a remoção de um presidente quando o mundo estiver desmoronando, mas não se estiver tudo ok.

Essa realidade não é um argumento contra o impeachment de Trump, pois sua conduta está basicamente pedindo uma remoção – um processo de impeachment pode ser moralmente correto, mesmo que sua realização seja improvável. Nem é prova de que o impeachment prejudicará os democratas em 2020: pode ser que manter o foco nas más ações e corrupções de Trump seja um uso mais eficiente da energia democrata do que se digladiar sobre quais itens não necessariamente populares da agenda progressista devem ser adotados pelos candidatos.

Em vez disso, apenas essa realidade advoga por certa modéstia em todas as análises, seja uma crítica a algum estratagema de Adam Schiff hoje ou uma condenação a Susan Collins (ou, talvez, Joe Manchin e Kyrsten Sinema) por não votar para destituir o presidente amanhã.

Pode ser que, no nosso sistema, seja necessária uma clara cascata de desastres para remover um presidente, mesmo que seja um presidente manifestamente corrupto. E, embora uma das razões para desejar seu impeachment seja o fato de que a probabilidade de desastre cresce com sua permanência no cargo, até mesmo seus críticos mais ferozes preferem a estabilidade e a necessidade de derrotá-lo nas urnas ao Algo Pior que pode precipitar sua queda./ RENATO PRELORENTZOU 

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