Análise: Estrategista duvida da eficácia de ataques aéreos cirúrgicos

Nas últimas 48 horas, membros do alto escalão do governo americano vazaram a informação dos planos de lançamento de mísseis contra instalações militares sírias em sinal de advertência a Damasco, para que não volte a usar armas químicas. No domingo, o senador Ben Corker disse que é iminente uma resposta americana na Síria. "Acho que responderemos de maneira cirúrgica", disse.

John Hudson *, Foreign Policy - O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2013 | 02h02

Na segunda-feira, tudo indicava que o secretário de Estado John Kerry cuidava dos preparativos. Agora, o ex-funcionário da Marinha que apresentou a proposta dos ataques cirúrgicos afirma ao site The Cable que tem dúvidas sobre o plano. Na sua opinião, está se confiando excessivamente na eficácia desses ataques sem que tenha havido uma discussão dos objetivos que eles devem alcançar.

"Ações táticas sem objetivos estratégicos são inúteis e contraproducentes", afirmou Chris Harmer, analista do Instituto para o Estudo da Guerra. "Nunca tive a intenção de promover minha análise de ataque com mísseis cruise, embora algumas pessoas tenham entendido assim. Deixei claro que essa seria uma opção de baixo custo, mas a questão mais ampla é que as opções de baixo custo não são úteis, a não ser que estejam vinculadas a prioridades e objetivos estratégicos", afirmou. "Todo oficial num navio pode lançar de 30 a 40 Tomahawks. Não é difícil. A dificuldade está em explicar às pessoas encarregadas do planejamento estratégico como isto favorecerá os interesses americanos."

Em julho, Harmer preparou um estudo mostrando que os EUA poderiam infligir amplos danos a importantes instalações militares sírias. "Isto poderia ser feito de maneira rápida, fácil, sem qualquer risco para o pessoal americano e a um custo relativamente menor", disse. O estudo convenceu os falcões do Congresso, frustrados com as opções apresentadas pelas Forças Armadas, que exigiam um envolvimento maior a um custo na casa de bilhões de dólares.

"Para um cálculo sério de uma opção militar realista limitada na Síria, recomendo um novo estudo divulgado pelo Instituto para o Estudo da Guerra", disse o senador John McCain, em julho, referindo-se ao estudo de Harmer. "Esse novo estudo confirma o que eu e outros há muito afirmamos: isto é factível em termos militares para os EUA e nossos aliados de maneira a afetar significativamente o poderio aéreo de Assad a um custo relativamente baixo, a um risco reduzido para o nosso pessoal e no curtíssimo prazo."

Nem todos os ataques cirúrgicos são iguais, evidentemente. E não há nenhuma garantia de que o plano de Obama se assemelhe ao de Harmer. Em todo caso, Harmer duvida que esses ataques produzam os efeitos desejados, principalmente se o objetivo for punir Assad pelo uso de armas químicas. "Uma ação punitiva é a mais idiota de todas", afirmou. "O regime de Damasco mostrou uma incrível capacidade de suportar o sofrimento e não acredito que tenhamos a coragem de empreender uma ação punitiva que produza um efeito dissuasivo."

Ele duvidou também da possibilidade de acabar com a capacidade de Assad em matéria de armas químicas. "Se começarmos a escolher como alvos as armas químicas na Síria, a resposta lógica será que, se é que há ainda armas nos arsenais, ele começará a distribuí-las entre suas forças, se é que já não fez isto", prosseguiu. "Portanto, vocês estão chegando tarde demais ao local da batalha".

*John Hudson é jornalista.

TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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