Lorenzo Tugnoli/WP
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Análise: Explosão de incompetência do governo libanês

Décadas de podridão em todas as camadas das instituições destruíram o porto de Beirute, grande parte da cidade e muitas vidas

Faysal Itani*, The New York Times

06 de agosto de 2020 | 05h00

Meu primeiro emprego de férias de verão no porto de Beirute foi na década de 90 e eu era adolescente. Passei meses trabalhando na manutenção de dados portuários, parte de um ambicioso programa para mudar o porto do analógico para o digital. O porto era uma infraestrutura crucial numa economia que prosperava após 15 anos de guerra civil. Manter os registros digitais fazia parte do futuro e era uma tentativa de estabelecer a ordem e a transparência mais do que necessárias por um setor público em recuperação. Afinal, era o mesmo porto que ficou inutilizado durante a guerra.

O Líbano que surgiu desses escombros desapareceu gradativamente estrangulado por uma classe política inescrupulosa. Décadas de podridão em todas as camadas das instituições destruíram o porto de Beirute, grande parte da cidade e muitas vidas. É exatamente a banalidade por trás da explosão que capta o nível de punição e humilhação que se abateu sobre o país.

Até agora, as autoridades estão de acordo quanto ao que aconteceu, embora seja provável que mais de um relato “oficial” seja divulgado. Afinal, este é o Líbano, um país profundamente dividido pela política, religião e história. Mas o que sabemos até o momento, segundo informações da mídia libanesa confiável, é que 2.750 toneladas de nitrato de amônio estavam num depósito.

Os portos são uma área excelente para facções criminosas, de milícias ou políticas. 

Diversas agências de segurança com diferentes níveis de competência (e diferentes fidelidades políticas) controlam vários aspectos de suas operações. E o recrutamento na burocracia civil é ditado por cotas políticas ou sectárias. Há uma cultura de negligência, corrupção mesquinha e troca de acusações típicas da burocracia libanesa, tudo supervisionado por uma classe política definida por sua incompetência e desprezo pelo bem público. A combinação desses elementos deixou uma bomba pronta para explodir num armazém por quase 6 anos. 

As consequências da explosão serão ainda mais graves. O principal silo de grãos, que conserva mais de 85% dos cereais do país, foi destruído. O porto não terá mais condições de receber mercadorias. O Líbano importa 80% do que consome, incluindo 90% do trigo usado para a fabricação do pão, que é o principal alimento na dieta de muita gente. E 60% dessas importações chegavam pelo porto de Beirute. 

O momento não poderia ser pior. Uma crise econômica devastou o Líbano por vários meses e a moeda desmoronou. A explosão deve acarretar uma catástrofe sanitária e alimentar nunca vista na pior das guerras. A classe política deverá ficar alerta nas próximas semanas: o choque, inevitavelmente, se transformará em raiva. 

Quando assisti aos vídeos de Beirute tomada pela fumaça, me vi pensando naquele verão em que trabalhei no porto. O projeto de digitalização foi concluído, mas as partes contrárias à transparência acabaram encontrando um jeito de burlá-lo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É ANALISTA POLÍTICO

 

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