Análise - Fracassado ou não, movimento é péssima notícia para os EUA

Seja qual for a nova realidade em Ancara, não é uma boa notícia para os EUA e seus aliados da Otan. A Turquia é membro da aliança atlântica e está na linha de frente das operações de contraterrorismo na vizinha Síria. Além disso, o país é a solução improvisada da Europa para a crise dos refugiados. Embora o governo de Barack Obama frequentemente tenha dado sinais de frustração e irritação com o presidente Recep Tayyip Erdogan – e por mais que a Casa Branca ache muito mais fácil lidar com os militares turcos –, um golpe de Estado na Turquia pode desatar mecanismos legais para cortar toda a ajuda americana ao país, desafiando a dependência dos EUA de instalações militares turcas na guerra contra o Estado Islâmico.

Karen DeYoung, Washington Post, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2016 | 16h16

Recentemente, Washington conseguiu afastar as exigências de grupos políticos americanos para cortar ajuda financeira após os golpes no Egito e na Tailândia, recusando-se a rotulá-los como “golpes”. “Mas esta é a Turquia”, disse Henri Barkey, diretor do programa de Oriente Médio do Wilson Center. “O país é membro da Otan. Há uma grande diferença.”

Ao mesmo tempo, um novo governo de Erdogan, restaurado ao poder, provavelmente seria ainda mais paranoico do que antes. A Casa Branca esperou várias horas após os relatos iniciais de golpe para fazer uma declaração forte se opondo à quartelada. Segundo a declaração oficial, Obama falou por telefone com o secretário de Estado, John Kerry, que estava em Moscou. Eles teriam “concordado que todos na Turquia deveriam apoiar o governo democraticamente eleito, demonstrar moderação e evitar violência e derramamento de sangue”. Mais tarde, Kerry emitiu sua própria nota, dizendo que tinha falado com o chanceler de Erdogan, Mevlut Cavusoglu, e enfatizou “apoio absoluto dos EUA ao governo civil e às instituições democráticas”.

O tratado que estabeleceu a Otan não diz o que fazer quando há um golpe militar em um país-membro da organização. Golpes anteriores na Turquia, Grécia e Portugal não provocaram mudanças radicais nas relações com a aliança atlântica. No entanto, uma eventual derrubada do governo turco acabaria com a possibilidade de adesão do país à União Europeia, prejudicando ainda mais uma economia já em frangalhos em razão de ataques terroristas.

Embora a Turquia tenha se esforçado nos últimos anos, EUA e UE desconfiam do governo cada vez mais islâmico de Erdogan e de sua lealdades na luta contra o terrorismo. A Turquia tem sido acusada de permitir que combatentes estrangeiros viagem através de sua fronteira e se unam ao EI na Síria e no Iraque. Além disso, Erdogan também é acusado de apoiar combatentes da militantes radicais que tentam derrubar o regime de Bashar Assad. “Não importa o que aconteça, a Turquia está em um período de instabilidade. E isto é ruim para os EUA”, disse Barkey.

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