DIDA SAMPAIO/ESTADAO
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Análise: Geopolítica, ideologia e política externa

Sem uma visão geopolítica do que se quer, Brasil permanecerá em estado de inércia e imobilizado pela disfuncionalidade de sua própria visão estratégica

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2020 | 14h00

O Brasil chega ao fim do segundo ano do governo Bolsonaro com o capital político internacional em declínio e com os ativos diplomáticos que nos garantiam respeitabilidade, influência e alguma capacidade de não ficar à reboque dos acontecimentos substancialmente deteriorados. 

No início do mandato presidencial, em 2019, foi prometido ao país uma política exterior não ideológica. De partida, as preferências que se delinearam foram diametralmente opostas ao anunciado. Optou-se pela diplomacia do personalismo ideológico. Ao invés da relação ser sedimentada de Estado para Estado, as escolhas foram Macri, Trump e Netanyahu, em detrimento de Argentina, Estados Unidos e Israel.

Alberto Fernández derrotou Macri, Joe Biden derrotou Trump e Netanyahu se encaminha para enfrentar mais uma eleição, a quarta em dois anos, podendo ser a última de sua longeva era – e com desfecho, possivelmente, desfavorável. Dos três aliados ungidos, dois perderam a sua respectiva reeleição e o último periga seriamente em não triunfar. 

Na Venezuela, se apostou na iminente queda de Maduro. Daí o governo embarcou de Juan Guaidó, o autoproclamado presidente venezuelano, que não tinha como vingar. Discordar do regime de Caracas é legítimo, porém, a estratégia diplomática de contrapor o chavismo se provou completamente equivocada. 

Na Europa Ocidental e, em particular, com as duas potências europeias, França e Alemanha (isso para não mencionar os demais países), a relação está em compasso de hibernação – ou em estado glacial lapidar. 

Ademais, a Amazônia tornou-se maior do que o Brasil na agenda global – um perigo colossal para o futuro de nossos interesses, sobretudo, nas discussões mundiais sobre mudanças climáticas e bioeconomia. Enquanto isso, o mundo não ficará esperando que caiamos na realidade e despertemos para uma ordem internacional cada vez mais competitiva e em constante transformação.

Biden colocou o pilar da mudança do clima como uma das prioridades, como demonstra a nomeação de John Kerry, secretário de Estado do segundo governo Obama, como enviado especial sobre o tema e com assento no Conselho de Segurança Nacional dos EUA. Isso significa que o assunto será comandado no mais alto nível, por alguém que negociou um dos mais complexos acordos em matéria de segurança internacional no pós-Guerra Fria. Não se deve descartar a hipótese de um entendimento triangular entre americanos, europeus e chineses sobre o tema de meio ambiente, o que deixará o Brasil em posição de suprema vulnerabilidade. 

Isso não é tudo, claro. A França anunciou esforço para reduzir a dependência da soja, a China também vem investindo na diversificação de fontes dessa commodity, incluindo na África! Das tensões com a China nada se colheu em benefício do Estado brasileiro e de seu povo. A dança que estamos ensaiando no 5G, sem uma estratégia concreta para tirar o máximo da competição sino-americana, corre o risco de apenas tornar a tecnologia proibitiva no país, atrasar sua implantação e, ainda por cima, atiçar a fúria dos chineses. 

É hora de fazer uma pausa e indagar: como chegamos até aqui e para onde vamos? É possível ainda nos dois anos restantes voltar a enxergar o que importa, ou seja, o mundo das relações de poder entre Estados, de interesses econômicos e competição política que não se reduz ao primarismo maniqueísta do globalismo versus nacionalismo e outras díades igualmente tacanhas?

A presunçosa teoria de que a atual “política externa” representa o “reencontro” do Brasil com seus “verdadeiros valores” simplesmente não vingou. E se tais escolhas eram as mais acertadas para contemplar essa suposta "verdade”, por que então todas as escolhas geopolíticas do Brasil deram errado? 

Cabe enfatizar que o componente geopolítico é fundamento estrutural no processo de formulação de qualquer política externa. O traçado geopolítico que rege a atual política externa brasileira, simplesmente, inexiste. Quando uma política exterior não se encontra edificada em arquétipo fundamentalmente geopolítico, o desenvolvimento de qualquer grande estratégia de política internacional torna-se não apenas anódina, mas inexequível. A implicação natural desse tipo de falha sistêmica faz com que o país não consiga projetar seus interesses e muito menos influenciar processos decisórios em tabuleiros regionais e globais. 

Com Joe Biden na Casa Branca, a configuração do poder mundial passará por um processo de ajustes que não favorece ao Brasil. Sem uma visão geopolítica do que se quer – para além de movimentos táticos conjunturais e ativismo diplomático de baixa latitude – o Brasil permanecerá em estado de inércia e imobilizado pela disfuncionalidade de sua própria visão estratégica.    

O Congresso, os setores organizados da sociedade, as forças produtivas, os partidos que hoje se aliam ao governo, os governadores e prefeitos: eis os atores que poderão exigir uma mudança real de conteúdo e não apenas de personagens, de substância e não somente de forma. Além da necessidade de resgatar a honra nacional, trata-se de uma questão de governabilidade. Na ausência dessa consciência, a alternativa será um país mais pobre, inseguro, instável e ainda mais irrelevante na sua região e no mundo. 

HUSSEIN KALOUT, 44, é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018).

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