REUTERS/Bobby Yip
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Análise: Hong Kong, uma inusitada derrota para o presidente chinês Xi Jinping

Apesar de a chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam, dizer que projeto de lei sobre extradição foi uma iniciativa sua, especialistas não creem que ela tomou tal decisão sem sem o endosso de Pequim; recuo, portanto, é revés para presidente chinês

Patrick Baert e Laurent Thomet, AFP

17 de junho de 2019 | 09h41

PEQUIM - As manifestações de Hong Kong e o recuo das autoridades locais em relação ao projeto de lei que autoriza extradições para a China continental são uma inusitada derrota para o presidente chinês, Xi Jinping, em seu desejo de reforçar a influência de seu regime sobre a ex-colônia britânica.

Pouco mais de 30 anos depois da sangrenta repressão na Praça da Paz Celestial, em Pequim, o líder chinês optou no caso atual por uma "retirada tática" diante da revolta em Hong Kong, que continua a ter um status especial dentro do país, segundo Jean-Pierre Cabestan, da Universidade Batista de Hong Kong.

Para esse especialista em China, "os líderes comunistas tiveram medo". "Eles estão preocupados com as repercussões na China continental, o que ilustra a paranoia dentro do partido (comunista chinês) e seu apego à segurança", diz Cabestan.

Na China, as mobilizações maciças em Hong Kong praticamente não foram discutidas. Nesta segunda-feira, a mídia oficial aludiu discretamente à suspensão do projeto de lei sobre extradições, mas não comentaram a gigantesca manifestação no domingo.

Segundo o cientista político Willy Lam, da Universidade Chinesa de Hong Kong, "os intelectuais e os habitantes das grandes cidades (da China continental) sabem o que está acontecendo" na ilha.

Para Lam, o recuo das autoridades de Hong Kong poderia "encorajar" defensores da democracia, embora seja muito difícil organizar um movimento de protesto na China continental.

Rejeição maciça

As manifestações de Hong Kong aparecem como uma reação ao aprofundamento do poder de Xi desde que ele chegou ao poder em 2012, observa Bill Bishop, editor da newsletter Sinocismo.

"O Partido, com Xi liderando, projeta uma imagem mais inquietante", diz Bishop. Para ele, as manifestações representam uma rejeição maciça da ideia de que "Hong Kong será um dia totalmente absorvido pela China".

De acordo com o acordo assinado com a Grã-Bretanha antes da reintegração do território à China em 1997, Hong Kong tem um status especial, político e econômico, até 2047.

Pequim começou na semana passada a se distanciar do projeto de lei sobre extradição, dizendo que foi a iniciativa da chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam.

Mas os especialistas não creem que Carrie tenha tomado tal decisão sem o endosso de Pequim, diz Victoria Hui, cientista política da Universidade Notre Dame, nos Estados Unidos. A suspensão do projeto é, portanto, segundo ela, "uma derrota para Xi Jinping".

Para Willy Lam, o caso de Hong Kong, corrói a imagem de Xi. "O líder de 1,4 bilhão de pessoas é incapaz de controlar um território de 7 milhões de habitantes", afirma.

O mesmo que Mao

No poder desde o final de 2012, Xi fortaleceu o controle do Partido Comunista Chinês (PCCh) sobre a sociedade e lançou uma campanha anticorrupção que afetou vários de seus adversários políticos.

Em 2017, ele obteve o poder de permanecer no comando do país tanto quanto deseje, e seu "pensamento" entrou oficialmente na Constituição no ano passado, assim como o fundador da China comunista, Mao Tsé Tung.

Mas Xi enfrenta oposição interna há um ano, alimentada pela guerra comercial com os Estados Unidos e pela desaceleração econômica, segundo Cabestan. O reflexo dessas tensões na direção do regime é a ausência de reunião por 15 meses do Comitê Central, o "Parlamento" do PCCh.

Os prejuízos infligidos pelos manifestantes de Hong Kong sobre o regime de Pequim ocorre pouco antes de um encontro do presidente chinês com seu colega dos EUA, Donald Trump, no final de junho no Japão, por ocasião de uma cúpula do G-20.

Pequim ainda não confirmou uma reunião de Xi com Trump para discutir a guerra comercial travada pelos dois países. Mas Washington já usou Hong Kong como trunfo e ameaçou suprimir as vantagens comerciais da antiga colônia britânica se o projeto de lei de extradição for adotado.

"(No meio de uma guerra comercial), seria um golpe muito duro para a economia de Hong Kong", adverte Bill Bishop.

Após a revolta de Hong Kong, Xi Jinping "precisa demonstrar firmeza e não cederá facilmente", alerta de Pequim cientista político independente Hua Po, lembrando que o projeto de lei de extradição foi suspenso por tempo indeterminado, mas não foi completamente abolido. / AFP

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