Anna Moneymaker/NYT
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Análise: Idiotas, gananciosos e oportunistas

Dentre os que deram sustentação ao discurso de Trump de que a eleição de Biden, e, portanto, a própria democracia americana é uma grande farsa, podemos destacar três grupos que operam em simbiose

Carlos Poggio*, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2021 | 04h00

Este não é mais o Partido Republicano deles. Este é o Partido Republicano de Donald Trump!

Quem proferiu esse obituário do Partido Republicano diante da multidão que poucas horas depois invadiria o Capitólio foi Donald Trump Jr. “Eles”, no caso, são os republicanos que compõem – ou compunham até 2016 – o establishment do partido. Dado que a invasão do edifício símbolo da democracia americana, durante a confirmação da vitória de Joe Biden pelo Congresso, é a consequência lógica da narrativa sustentada por Trump, os republicanos têm agora a obrigação de responder à afirmação de Trump Jr. Ou preparar o velório.

A imagem de um sujeito vestido com o que parecia ser uma fantasia de viking sentado na cadeira de onde presidentes do Congresso comandam eventos como a cerimônia anual do Estado da União ficará eternizada como símbolo para aqueles que acreditam que palavras irresponsáveis proferidas por líderes podem apenas ser tratadas como entretenimento sem maiores consequências. 

Dentre os que deram sustentação ao discurso de Trump de que a eleição de Biden, e, portanto, a própria democracia americana, é uma grande farsa podemos destacar três grupos que operam em simbiose. O primeiro é composto por aqueles que convencionou-se chamar-se de “idiotas úteis”. São os que mais genuinamente acreditam nas teorias conspiratórias e ajudam a propagandear a narrativa trumpista sem nenhum objetivo específico, mas apenas para sentirem-se parte de uma tribo política. Muitos eram indivíduos socialmente atomizados que não participavam de instituições políticas organizadas e, através das redes sociais, encontraram outras pessoas com pensamentos similares. 

No segundo grupo, temos os que faturam com isso. São blogueiros, youtubers e “influenciadores digitais” em geral que detectaram uma audiência, e, portanto, um mercado para vender essas ideias. Alguns desses trabalham ou conseguem espaço em órgãos tradicionais de imprensa, ajudando a reverberar o discurso para uma audiência maior.

O terceiro grupo é o mais relevante. 

Trata-se dos políticos do Partido Republicano que, mesmo muitas vezes desconfortáveis com o código mafioso do trumpismo e, sabendo ser impossível reverter a vitória de Joe Biden, compraram o discurso de Trump por conveniência política. Acreditaram que os alertas sobre os perigos do discurso de Trump para a democracia americana eram infundados, e que contar com o apoio do presidente era o mais importante no curto prazo. Podem estar repensando sua posição. 

É esse o grupo que deve definir o futuro do Partido Republicano. Se uma parte substancial deles concluir que o custo do apoio a Trump tornou-se muito elevado, podem se juntar a parcela de republicanos que rejeita o presidente desde o princípio. 

Se duas cadeiras perdidas no senado do conservador Estado da Geórgia, quatro cadáveres, e um sujeito vestido de viking sentado na cadeira da presidente do Congresso não forem suficientes para expurgar o trumpismo do Partido Republicano, “eles” terão que admitir que Donald Trump Jr. está coberto de razão.

* É PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA FAAP E PÓS-DOUTOR PELA UNIVERSIDADE DE GEORGETOWN

 

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