Omar Haj Kaddour/ AFP
Omar Haj Kaddour/ AFP

Análise: Idlib poderá se tornar a maior história de horror do século 21  

Há anos, a província sitiada de Idlib servia como último refúgio dos que fugiam das forças leais ao presidente Bashar Assad; mas agora eles não têm mais aonde ir

Ishaen Tharoor / The Washington Post  , O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2020 | 04h00

Quase dez anos após o início da terrível guerra civil, a Síria experimenta agora talvez a sua maior crise humanitária. Uma ofensiva do regime sírio contra os últimos enclaves rebeldes remanescentes no noroeste do país provocou um êxodo de mais de 800 mil civis, em sua maioria mulheres e crianças, desde o dia 1º de dezembro. Alguns deles estão fugindo pela terceira ou quarta vez dos bombardeios em uma guerra que ceifou cerca de 400 mil vidas e desalojou mais da metade da população do país.

Há anos, a província sitiada de Idlib na Síria servia como último refúgio dos que fugiam das forças leais ao presidente Bashar Assad. Mas agora eles não têm mais aonde ir. A Turquia, que já hospeda mais de 3,6 milhões de refugiados sírios, fechou sua fronteira, enquanto cogita lançar uma campanha de retaliação contra o regime de Assad.

Comboios de civis escaparam de cidades da província, enquanto a artilharia do regime e a força aérea russa lançavam bombas sobre o que consideravam posições rebeldes.

Centenas morreram desde o início da ofensiva, enquanto testemunhas sugerem que o regime e os seus aliados miraram indiscriminadamente escolas, hospitais e mesquitas em um avanço que utilizou a tática de terra arrasada em que dezenas de cidades foram reduzidas a escombros.

O atual deslocamento de pessoas se constitui no maior êxodo humano desde a campanha de 2017 realizada pelo Exército de Mianmar que obrigou centenas de milhares de muçulmanos rohingya a buscar o santuário do vizinho Bangladesh.

E o frio é brutal. Na semana passada, mais de dez refugiados morreram por estarem expostos a temperaturas muito baixas. Os trabalhadores da ajuda humanitária, que atuam principalmente da fronteira na Turquia, afirmam que estão sobrecarregados e preveem uma grande escassez de barracas. A água potável também é escassa e as instalações sanitárias são em geral inexistentes, porque os civis em fuga montam campos improvisados em pleno inverno sírio.

No entanto, para Assad, este é um momento de triunfo. Na segunda-feira, ele fez um discurso em Alepo saudando a reconquista pelo regime de uma rodovia estratégica que entra na cidade através de Idlib.

“Nós sabemos que essa libertação não significa o fim desta guerra ou a eliminação de todos os complôs ou o fim do terror ou a rendição do inimigo, mas definitivamente esfrega os seus narizes na terra”, disse Assad. “Este é o prelúdio da derrota final (dos rebeldes), mais cedo ou mais tarde”.

No mesmo dia, Mark Lowcock, o subsecretário geral para assuntos humanitários da ONU, advertiu em um documento que, dentro em breve, a situação em Idlib poderá se tornar a maior história de horror humanitário do século 21” se as potências mundiais não insistirem em um cessar fogo.

Mas, como ocorre na guerra síria, o mundo está em grande parte indiferente. O governo Trump está preocupado unicamente em desenredar-se do conflito. As autoridades da Otan, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, reiteraram que a aliança não apoiará a Turquia se ela embarcar em outra incursão na Síria. Os confrontos entre Turquia e as forças do regime já provocaram dezenas de mortes de ambos os lados. Mas Assad só quer pressionar em busca das próprias vantagens.

“O regime sírio está determinado a eliminar o último reduto da resistência rebelde na Província de Idlib ... E a Rússia deu o seu total apoio à ofensiva com ataques aéreos”, noticiaram os meus colegas na semana passada.

“O objetivo de Moscou não é apenas apoiar um velho amigo, a Síria”, acrescentou. “Ela quer também projetar o poderio global russo  contra a Oan, por meio de malabarismos entre a complicada amizade do presidente Vladimir Putin e outro líder autoritário com a mesma mentalidade, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan”.

Na terça-feira, as delegações russa e turca concluíram nova rodada de conversações em Moscou. O objetivo era  a redução da escalada do conflito, entretanto não se sabe ao certo se houve um progresso real. Os dois países se encontram presos a uma tensa competição geopolítica, em extremidades opostas de duas guerras civis, a da Síria e a da Líbia.

“A aproximação entre Ancara e Moscou, que acelerou desde a tentativa de golpe de 2016 contra Erdogan, foi uma das surpreendentes dinâmicas regionais dos últimos anos”, observou Sinan Ulgen, presidente executivo do EDAM, um centro de estudos sobre economia e política externa sediado em Istambul. Ele destacou a especulação e o fato de Ancara estar se deslocando tacitamente na direção de Moscou depois da controvertida aquisição de um sistema de defesa de mísseis russo pelo membro da Otan.

“Mas os verdadeiros limites de uma convergência de interesses turcos e russos podem ter sido alcançados em Idlib”, acrescentou Ulgen. “O conflito direto turco-sírio poderia representar de irmãos, Erdogan-Putin”.

Enquanto isso, a Turquia se encontra em beco sem saída. Nos últimos anos Erdogan, um demagogo iliberal, incomodou a maior parte dos principais governos ocidentais e se encontra mergulhado em um imbróglio político. Os grupos rebeldes que agem por procuração apoiados pelo governo de Erdogan em Idlib enfrentam uma lenta derrota, enquanto a maioria do eleitorado turco se opõe energicamente  a permitir o ingresso de mais refugiados sírios no país.

“O que deveria ter sido uma espécie de ato de equilíbrio entre a Rússia e o Ocidente hoje se assemelha mais a uma prisão para a Turquia”, escreveu o colunista Asli Aydintasbas do Washington Post. “Qualquer que tenha sido a motivação, Erdogan e os seus aliados tornaram a Turquia extremamente vulnerável – e isolada – para defender a Rússia em Idlib”.

As escolhas em Idlib são sombrias. “Se você voltar, poderá ser detido e passar o resto da vida na cadeia ou pior ainda”, disse um sírio chamado Obaid à CNN, falando da perspectiva de viver mais uma vez sob o governo de Assad. “Prefiro morrer a voltar para o regime”./TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.